A Série A do Campeonato Brasileiro de 2015 terminou com um saldo de 35 trocas de técnicos. Dos "professores" que começaram o torneio, apenas o campeão Tite "sobreviveu" à dança das cadeiras dos clubes. No ano de 2014, entre demitidos e interinos que foram remanejados, 24 técnicos perderam seus cargos. Contudo, esse ano revelou uma mudança na visão da cartolagem brasileira em relação aos técnicos. Dos 20 clubes da Série A, 6 (todos campeões brasileiros e citados nesse texto) apostaram suas fichas em "professores" da nova safra, muitos para fugirem dos altos custos das comissões técnicas "Luxemburgorianas" e/ou "Scolarianas".
A primeira grande aposta e que provavelmente proporcionou os melhores resultados aconteceu pela direção do Grêmio e tem nome e sobrenome: Roger Machado. O ex-jogador foi anunciado como técnico do tricolor gaúcho em 26 de maio para substituir Luiz Felipe Scolari, que em 2014 participou do "7 x 1" e 2015 desgastou a relação com a diretoria e a torcida gremista com atitudes extremamente controversas, como ao abandonar o banco de reservas tricolor antes do final do jogo em que o Grêmio fora derrotado pelo Veranópolis no Gauchão 2015. Entre Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro, Roger comandou o Grêmio em 41 jogos somando 22 vitórias, 9 empates e 10 derrotas, destacando o terceiro lugar no Brasileirão e a garantia de que o tricolor disputará a Libertadores 2016. Embora conquistar vagas para outros campeonatos não seja o objetivo do futebol, é importante destacarmos que Roger conseguiu acertar uma equipe desmotivada por um trabalho confuso de Scolari e sua comissão. Roger "contaminou" os jogadores com a sua filosofia de trabalho voltada mais para o trabalho tático do que para a motivação, característica de seu antecessor. Em seu primeiro jogo na Arena (e segundo como técnico tricolor) Roger e sua equipe derrotaram o Corinthians por 3 x 1, sendo que os primeiros dois gols tricoleres aconteceram nos 4 primeiros minutos de jogo. Além desse resultado, cabe citarmos o sonoro e histórico 5 x 0 contra o rival Internacional e a sequência de 5 vitórias seguidas entre 14 de junho e 5 de julho. Apesar dos dois jogos fracos contra o Criciúma pela Copa do Brasil (a equipe conseguiu a vaga na disputa de penalidades) e eliminação precoce nas quartas-de-final para o Fluminense em casa, Roger Machado deu competitividade à sua equipe e recuperou o bom futebol de jogadores como Douglas e Maicon, além de aproveitar jogadores jovens como Rafael Galhardo e Pedro Geromel.
Rival do Grêmio, o Internacional começou a temporada com o uruguaio Diego Aguirre. Veio o título estadual e as semi-finais da Libertadores. Apesar desses resultados expressivos e de ter montado uma equipe interessante, pesaram contra Aguirre a eliminação para o Tigres no campeonato continental e a goleada sofrida para o Grêmio. Para seu lugar a diretoria colorada escolheu o ex-jogador e técnico campeão catarinense com o Figueirense em 2015, Argel Fucks. Argel foi descrito pela impressa gaúcha como "
um técnico com profundo conhecimento tático e uma série de discussões com jogadores e imprensa" (
COLORADO ZH). O estilo motivador não escondeu o conhecimento tático do ex-zagueiro, que levou a contestada equipe colorada ao quinto posto no Brasileiro e empurrou a briga por uma vaga no G-4 até a última rodada do campeonato. Talvez a maior conquista de Argel tenha sido a sua capacidade de elevar jovens jogadores ao protagonismo da equipe. Valdívia, Rodrigo Dourado, Vitinho e o agora goleiro da Seleção Brasileira, Alisson, conseguiram revelante destaque entre os medalhões D'Alessandro, Juan, Alex e Rafael Moura. O Inter de Argel pagou pelos erros contra equipes da parte de baixo da tabela; as derrotas para Avaí, Goiás e Chapecoense, todas fora de seus domínios, demonstram a falta de consistência dos colorados. O contraste dá-se nas vitórias contra Corinthians e Grêmio (ambas no Beira-Rio) e contra o Flamengo, no Rio de Janeiro. Argel Fucks comandou a equipe gaúcha em todo o segundo turno do Brasileiro e obteve 11 vitórias, 3 empates, 6 derrotas e um bom 60% de aproveitamento. O contrato de Fucks termina ao final desse mês e a expectativa é que os cartolas colorados renovem com o treinador. A impressão que fica é que Argel sente-se em casa no Beira-Rio e que tem o apoio dos gerentes de futebol e da torcida, além de conseguir manter a equipe em suas mãos. O trabalho de 2015 foi bastante interesse e é válido dizer que com as peças corretas, o Inter poderá colher bons frutos pela aposta em Argel.
A nossa lista desembarca agora no Rio de Janeiro, precisamente em São Januário. O Vasco da Gama, rebaixado à Série B pela terceira vez, foi comandado por três treinadores nessa temporada. A primeira aposta do cruzmaltino aconteceu ao final da temporada passada: Doriva foi escolhido para montar a equipe que retornava à primeira divisão e que ainda disputaria o campeonato estadual e a Copa do Brasil. O objetivo era manter o Gigante da Colina na Série A nacional. O técnico campeão paulista pelo Ituano em 2014 armou uma equipe que mantinha a posse de bola e trocava muitos passes sem conseguir finalizações ao gol. O título carioca aumentou a esperança dos vascaínos, mas a realidade se mostrou dura e Doriva não aguentou a pressão pela falta de resultados. O treinador pediu demissão após a oitava rodada do nacional, tendo 12,5% de aproveitamento: 3 empates e 5 derrotas. O time de Doriva trocou 2.828 passes em oito partidas, uma média de 353,5 por jogo, mas teve um saldo de gols de -11 (
BLOG DO GARONE). Eurico e cia cometeram então, o maior erro da temporada: apostaram em Celso Roth. O começo do trabalho de Roth trouxe esperança ao torcedor. Um time que definia jogadas rapidamente e que conseguiu duas vitórias por 1 x 0: contra o rival Flamengo e o contra o Avaí. Depois disso foram 3 derrotas seguidas, vitória no clássico contra o Fluminense, mais 3 derrotas, 1 empate, 30,3% de aproveitamento e Roth demitido.
Então veio a aposta, tardia, diga-se de passagem, em Jorginho. A principal virtude do time de Jorginho foi o equilíbrio em todos os quesitos: desarmes, finalizações, roubadas de bola, faltas cometidas e passes errados. As derrotas nos três primeiros jogos não impediram Jorginho de seguir trabalhando com um time limitado. Além de motivador, o tetracampeão mundial contou com a liderança de jogadores veteranos como Rodrigo e, principalmente, Nenê, além de armar um esquema 4-3-2-1 onde Diguinho, Serginho e Andrezinho compunham o meio, o primeiro centralizado e os outros dois mais abertos, Nenê postado à frente como armador e dois ponteiros - Rafael Silva e Riascos - atacando e voltando para compor as linhas defensivas do meio cruzmaltino. A equipe encontrou o entrosamento necessário para buscar vitórias. Jorginho contornou uma situação iminente de rebaixamento para uma outra onde o Vasco da Gama pode lutar até a última rodada para fugir do Z-4. Mesmo com a queda, causada em boa parte pelas más gestões de Miranda e Dinamite, é importante destacarmos o modo como Jorginho reinventou esquemas até encaixar um Vasco que errava menos passes e chegava ao gol com a bola no chão, sem ligações diretas entre defesa e ataque. Para o Vasco, acima de tudo é necessário manter o treinador que quase o salvou do terceiro rebaixamento.
Ainda no Rio de Janeiro, vamos para as Laranjeiras e apresentamos as apostas da diretoria do Fluminense nesse ano. O primeiro selecionado foi Ricardo Drubscky, na época ex-Vitória. Lédio Carmona definiu bem a demissão de Drubscky após 8 jogos (5 vitórias e 3 derrotas): "
Ao demitir Drubscky, a diretoria assume que errou ao contratá-lo" (
LÉDIO: AO DEMITIR RICARDO DRUBSCKY, FLU ADMITE QUE ERROU AO CONTRATÁ-LO). Os dois meses de trabalho de Drubscky dificultam uma análise profunda; não podemos acreditar que nesse curto período ele tenha passado sua visão de jogo para seus comandados. Em maio a diretoria tricolor anunciou Enderson Moreira. Sua passagem durou até setembro e Moreira saiu com pouco mais de 47% de aproveitamento obtendo 11 vitórias, 4 empates e 11 derrotas. Vale citar que Enderson deu uma cara ofensiva ao time do Fluminense, com muita posse de bola e boa compactação no meio, além de trabalhar bem com meninos da base como Gustavo Scarpa e Gérson. Contudo, enfrentou uma certa turbulência no período em que Ronaldinho Gaúcho passou pelas Laranjeiras e os resultados pouco expressivos daquele período em diante lhe custaram o cargo.
Por fim o clube das Laranjeiras contratou Eduardo Baptista, que deixou o Sport após um ano e sete com meses, 122 jogos (55 vitórias, 30 empates e 37 derrotas), 53% de aproveitamento e dois títulos em 2014: Campeonato Pernambucano e Copa do Nordeste. Nesse momento não é cabível comentarmos os trabalhos dos três técnicos citados, especialmente pelo pouco tempo que cada um teve/tem à frente da equipe. O objetivo desse texto é expor como algumas diretorias optaram por técnicos da nova geração e especificamente no caso da direção tricolor, notamos uma diferença clara nas filosofias de trabalho que foram trazidas para o clube e isso demonstra o despreparo dos contratantes, que não escolheram com convicção a metodologia que deveria reger o grupo de atletas. Eduardo Baptista não é uma certeza mesmo tendo conquistado bons resultados no Recife e fica difícil acreditar que ele foi contratado, principalmente, pela sua visão futebolística.
Além dos nomes citados, é importante lembrarmos de "professores" como Milton Mendes, campeão da Série-A2 2015 com a Ferroviária de Araraquara e que levou o Atlético Paranaense à liderança do Campeonato Brasileiro. O trabalho de Mendes foi interessante pela filosofia do treinador em acreditar na base do clube, além de construir uma equipe com boa triangulação e velocidade na troca de passes. O técnico foi demitido não tanto pela falta de resultados, mas sim por não ser um medalhão capaz de segurar o "rojão" de uma fase oscilante. É triste saber que um profissional com tanto potencial tenha sido rebaixado ao futebol japonês.
Paulo Roberto Falcão, substituto de Eduardo Baptista no Sport, também se mostrou uma boa aposta para o final dessa temporada e para o próximo ano. Conseguiu manter a ofensividade do clube pernambucano, bem como uma defesa sólida liderada pelo capitão e ídolo Durval. Falcão tem à sua frente a melhor oportunidade de sua empreitada como técnico. Sua principal missão é ter a capacidade de apontar nomes que substituam Diego Souza e Marlone, em negociações avançadas com Fluminense e Corinthians, respectivamente.
Sem dúvida foi interessante acompanhar o trabalho desses jovens técnicos. Alguns deles possuem características semelhantes: Roger, Argel e Doriva têm menos de 45 anos, são ex-defensores medianos e trazem/trouxeram para as suas equipes uma filosofia que mescla posse de bola, triangulações e compactação defensiva, especialmente os dois primeiros. Diferenças de personalidade à parte, todos os treinadores citados nesse texto se mostram estudiosos quanto às novas táticas de jogo. Compreendemos então que o "7 x 1" mexeu com os "professores" da nova geração. Vemos uma humildade que, de imediato, é necessária para resgatarmos os áureos tempos do futebol brasileiro. Logicamente não basta apenas isso: o futebol brasileiro precisa abrasileirar os conhecimentos táticos oferecidos pelo futebol estrangeiro. Aplicá-los de forma crua não é correto pois nossos jogadores não tem (nem devem ter!) as características dos jogadores europeus. É importante o resgate da essência do futebol tupiniquim: jogadores que driblem em direção ao gol, que se arrisquem com passes milimétricos, que justifiquem a "ousadia" do lema boleiro "ousadia e alegria".
Quanto aos "professores", acredito que é bom pontuar que estudo nunca é demais. No futebol essa máxima se sustenta quando olhamos para as nossas últimas participações em Copas do Mundo. A temporada 2015 trouxe um pequeno, porém importante suspiro quanto aos comandantes que futuramente assumirão os postos deixados por Scolari, Parreira, Luxemburgo e cia. Liderados por Tite, essa nova geração deve compreender, em primeiro lugar, o tipo de jogador que é formado por aqui, depois absorver o máximo de conhecimentos táticos possíveis, para enfim, adaptá-los ao nosso tipo de jogador, tanto nos clubes quanto na Seleção Brasileira. Como disse na introdução do último parágrafo, foi interessante acompanhar os trabalhos desses jovens treinados e devemos encarar a chegada dessa geração como um benefício para o cenário do futebol nacional. Contudo, fica a pergunta sobre as razões pelas quais os ditos clubes grandes ofereceram oportunidades para esses profissionais: os cartolas conheciam seus futuros contratados ou simplesmente lhes faltou dinheiro em caixa para os medalhões? Entre mortos e feridos quem respira é o futebol brasileiro, que vê surgirem opções para mudanças, ao menos nos bancos de reservas.