quinta-feira, 13 de abril de 2017

LES BLEUS – UNE AUTRE HISTORIE DE FRANCE, (1996-2016)

 
Futebol e política. Uma combinação fantástica e pouco estudada. O filme em questão é disponibilizado pelo Netflix e apresenta os bons e maus momentos da Seleção Francesa de Futebol em um período onde se instaurou uma crise de identidade em toda a nação francesa. O filme explica como a xenofobia e as ondas de imigrações foram conduzidas pelos governantes franceses em um momento onde o Escrete nacional vivia o seu auge esportivo, liderados por Zinediné Zidane, jogador de origem argelina e outros atletas de origens africanas. O modo como o futebol compõe o discurso político é sensacional. Por exemplo, o jogo entre França x Argélia onde mais de 200 torcedores argelinos invadem o gramado, ocorrido duas semanas após o 11 de setembro de 2001, sustenta o discurso dos conservadores (“Restaurar a ordem na França”) da Frente Nacional durante as eleições presidenciais francesas de 2002. 

 A derrocada e reconstrução da seleção Francesa entre 2002 e 2006 ocorrem simultaneamente às Revoltas de 2005, onde “as periferias francesas queimaram por 10 dias” logo após a morte de dois adolescentes não brancos que fugiam de uma blitz da polícia francesa. As políticas de integração mal feitas ao longo daqueles últimos anos resultaram em uma revolta coletiva das classes mais baixas do país e nesse momento, sem o sucesso futebolístico de outrora, o governo francês se viu sem um escudo que favorecesse o seu próprio marketing. Combinado a isso, a insatisfação de alguns atletas com o posicionamento do Estado perante aos chamados “marginais” (leia-se negros e descendentes de árabes) reforçou a má imagem do governo do país. A (re)e(des)construção do mito “negro- branco-árabe”, utilizada para descrever o espírito da Seleção Francesa ao longo dos anos, especialmente durante as Copas Mundiais de 1998 e 2006, é esmiuçada ao longo do filme e espelhada através da sociedade francesa, sendo a última incapaz de compreender sua própria identidade nacional e, representada por um governo contraditório (o de Nicolas Sarkozy), também incapaz de compreender a diversidade social que crescia no país e no restante do continente europeu. 

A crise durante a Copa do Mundo de 2010 surgiu como assunto de Estado, onde Sarkozy repreende o atacante Nicolas Anelka, por um suposto ato de indisciplina do atleta contra o técnico Raymond Domenech. A greve dos jogadores foi vista com maus olhos por boa parte dos franceses e a Seleção Francesa acabou eliminada ainda na fase de grupos do Mundial. A segunda vez em três Copas. Outra vez o povo francês aponta os culpados: três atletas de descendência africana são considerados os líderes da greve dos jogadores e culpados pelo fiasco em 2010. A noção de identidade e o patriotismo tornam-se pautas ainda mais constantes na sociedade e dentro da Federação Francesa e da equipe de futebol. As medidas discriminatórias debatidas nos escritórios da F.F.F. dividiram o país e o espírito “branco-negro-árabe” caia por terra juntamente com o trabalho do técnico Laurent Blanc, após a eliminação dos Azuis na Eurocopa de 2012. A caminho da Copa do Mundo de 2014, a sociedade francesa encontra um novo alvo para as críticas: o atacante Karim Benzema, nascido na Argélia. As falas de influentes políticos conservadores fomentam o senso comum de que o insucesso da seleção se dá pela falta de patriotismo dos jogadores com dupla-cidadania. O novo insucesso em Copas não abala a nova geração de jogadores franceses. 

A seleção se torna o símbolo do espírito de união para toda a sociedade francesa logo após os atentados à sede da revista Charlie Hebdo e à boate Bataclan. Novamente os Bleus estão nos braços do seu povo. Em meio aos recentes atentados terroristas ocorridos no país, o selecionado francês chega à final da Eurocopa de 2016 (sediada na França) sem o atacante Karim Benzema, afastado do grupo por problemas com a justiça francesa. O mesmo Benzema relaciona o seu afastamento do time com o racismo presente em parte da sociedade do país. A derrota para Portugal na final do torneio é mero detalhe. O material humano presente na Seleção Francesa representa a sociedade francesa. “Negros-árabes-brancos” nunca foi tão real e cabe à sociedade expurgar de si todo e qualquer tipo de pré-conceito existente em seu seio.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

TITE E A SUA TEIMOSIA COM YAGO

Tite é um dos melhores treinadores do Brasil, quiça o melhor. Bi-Campeão nacional, bi-campeão continental (Libertadores e Sul-Americana) e campeão mundial. Cotado para assumir a Seleção Brasileira. O "professor" Adenor criou, na temporada temporada, uma máquina que venceu o Brasileirão com sobras. As filosofias de Tite são conhecidas por todos: mérito e trabalho são o norte do gaúcho. Em 2016 o Corinthians sofreu um desmanche considerável e o treinador precisou reestruturar a equipe, com o objetivo de conquistar a Taça Libertadores pela segunda vez.

O fato é que a equipe do Parque São Jorge não engrenou. Estamos em maio e a eliminação no Campeonato Paulista, para o Audax, é nada perto da falta de qualidade de jogo do alvinegro neste ano. A recomposição rápida nas duas linhas de quatro não acontece com a facilidade de outrora, as triangulações não encaixam (muito pela falta de material humano hábil para tal função) e consequentemente os gols não saem com fluidez. O maior problema, ainda não citado, ocorre na defesa (sempre forte sob a batuta de Tite): as bolas aéreas lançadas para a área alvinegra tem sido o pesadelo do treinador e da torcida. Felipe e Yago não se encaixam. O jovem camisa 3 não mostra maturidade para solidificar-se na titularidade e mesmo com atuações muito aquém do esperado, Tite insiste com o zagueiro. 

Que o técnico é teimoso em alguns momentos, todos conhecem. Faz parte da essência de Tite e essas teimosias já maduraram bons frutos ao Corinthians. Porém o caso de Yago é especial pelo tempo dado ao atleta para firmar-se e por ter, Tite, à sua disposição no banco de reservas, o bom defensor paraguaio Fabián Balbuena. É unânime para a torcida alvinegra que Yago não está pronto para ser titular, não por falta de qualidade, mas por cometer ainda, erros que boa parte dos defensores de sua idade ainda cometem (como erros de posicionamento durante a formação de linhas de impedimento). Balbuena, cometeu poucos erros nos poucos jogos que disputou e se mostrou extremamente hábil nas bolas aéreas, tanto na defesa quanto no ataque - o jogador tem dois tentos anotados, ambos de cabeça. É difícil compreender as razões de Tite para não utilizar o paraguaio, que demonstra regularidade ímpar e está no mesmo nível (para alguns é até melhor), que o companheiro de Yago, o zagueiro Felipe. 

Hoje o Corinthians decide, em São Paulo, se avança para as quartas-de-finais da Libertadores. Se bater o Nacional-URU, a equipe poderá enfrentar o Boca Juniors-ARG e em pesadelos, a Fiel Torcida já imagina La Bombonera e o ídolo Carlitos Tévez infernando a frágil defesa corinthiana. A teimosia com Yago pode custar caro ao multi-campeão Tite. Balbuena pode ser a solução para os problemas no setor defensivo e cabe ao treinador admitir que o paraguaio merece, há tempos, a titularidade. 

O zagueiro paraguaio já tem dois gols com a camisa do alvinegro e mostrou-se forte no jogo aéreo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

DEVOLVAM A ESSÊNCIA DE TORCER

Na última segunda-feira aconteceu a final da 47ª Copa São Paulo de Futebol Júnior. Mais de 30.000 pagantes ocuparam as arquibancadas do Pacaembu para assistir a vitória do Flamengo sobre o Corinthians por 4 a 3 na decisão por pênaltis, depois de um bom 2 a 2 no tempo normal. O forte calor não espantou a animação das duas maiores torcidas do país e o "Clássico do Povo" foi um ótimo começo de celebração para a "Terra da Garoa", que completou 462 anos. Tudo muito bonito até as regras assassinas da essência do esporte e impostas pela Federação Paulista de Futebol e pela CBF aparecerem para desbotar o show. 

A primeira punhalada aconteceu após o primeiro gol da equipe alvinegra, ainda no primeiro tempo de jogo. Gabriel Vasconcelos marcou e saiu para comemorar com a torcida corinthiana. Subiu no alambrado e levou cartão amarelo pelo ato. Já no segundo tempo a partida foi paralisada após a torcida do clube do Parque São Jorge acender bastões, erroneamente chamados de sinalizadores pela imprensa, e uma nuvem de fumaça tomar conta das arquibancadas do Paulo Machado de Carvalho. Nada de nocivo, apenas festa dos torcedores paulistas. Mas a arbitragem da FPF se viu obrigada a seguir as regras e interrompeu o jogo até que a fumaça desaparecesse. Os narradores da Rede Globo e do Sportv, Cléber Machado e Milton Leite, respectivamente, criticaram os torcedores com o mesmo discurso sobre a periculosidade dos "sinalizadores". Walter Casagrande Jr., célebre pelo espírito libertário na época da Democracia Corinthiana, também se posicionou contra os torcedores. Por fim, durante a disputa das penalidades, os goleiros Thiago e Filipe trocaram algumas provocações, típicas do calor do jogo e da tensão de uma decisão. Ambos foram advertidos com cartão amarelo.

A festa da torcida Corinthiana no Pacaembu.
Fonte: Eder Santos
As advertências para casos como os citados, especialmente para o que envolve diretamente a torcida, são extremamente tristes para a essência do futebol. Não é de hoje que restrições como essas permeiam as arquibancadas dos estádios de São Paulo. As bandeiras com mastros de bambu foram proibidas há anos. Os bastões de fumaça, como vimos, também são passíveis de repreensão. As chuvas de papéis picados e/ou rolos de papel higiênico, tão famosas nos países vizinhos do Brasil, ocorrem em ocasiões cada vez mais esporádicas. Essas medidas restritivas parecem inofensivas se vistas sem o sentimentalismo apaixonado de torcedor. A restrição às bandeiras com mastros soam até como uma proteção ao espectador, mas quem realmente enxerga o futebol com olhos de paixão sabe que o prazer de torcer está sendo assassinado aos poucos: seja com as famigeradas regras do "Manual do Torcedor", seja com a extinção das populares "Gerais" nas novas Arenas. Essa elitização no modo de torcer do brasileiro vem desconstruindo todas as características do esporte jogado por aqui, inclusive a falta de alma nas novas arquibancadas reflete, pois, na nova geração de jogadores. Até as bandinhas (charangas), típicas das torcidas do Nordeste e do Sul, que também fizeram sucesso no Rio de Janeiro, estão quase extintas nesse novo modo de torcer.

A justificativa para as mudanças e proibições a fim de assegurar o bem-estar do torcedor é mais uma daquelas balelas manjadas por qualquer um que conhece o meio. O cidadão que vai para o estádio com o objetivo de espalhar a violência o fará com qualquer coisa que esteja ao seu alcance: seja o mastro da bandeira (embora eu ache pouco provável que alguém consiga fazer algo com uma estrutura de bambu de mais de 3 metros de altura) ou com as suas próprias mãos. Os bobos do futebol são aqueles que culpam apenas as torcidas organizadas pela falta de segurança nos estádios brasileiros. Essa "árvore de culpa" é extensa e tem suas raízes em problemas sociais que vão muito além do que esse texto pode explicar. Cada torcedor carrega no coração, além da paixão pelo futebol e pelo clube (não exatamente nessa ordem), um ritual ou tradição que entrará em combustão assim que ele adentrar ao estádio. Não faz sentido tirarmos essa intensidade do esporte. Não faz sentido colocarmos todos sentados para comemorar um gol como se assistissem a uma ópera.

Alguns acreditam que essas mudanças na estrutura dos estádios e no espírito do torcedor são os primeiros passos  rumo à modernização do futebol brasileiro. Acredito que o que impede o desenvolvimento e consequente equiparação ao que é apresentado no estrangeiro são as enferrujadas estruturas internas do nosso esporte. É possível respeitar as tradições, como manter os estádios populares a despeito das arenas e o modo de torcer às antigas, e paralelamente desenvolver o futebol com a união e fortalecimento dos clubes. A essência desse esporte está impregnada no retrato do povo brasileiro e não vejo saudosismo quando pedimos um futebol mais democrático e que se mantenha próximo da realidade das massas. Torcer é um ato de paixão. É ato quase irracional que beira a loucura. Não podemos aceitar todas essas imposições, que tratam de criar apenas uma caricatura do torcedor brasileiro. Não somos sócios-torcedores. Não somos torcedores de arenas. Somos torcedores e nada mais. Apaixonados. E nada mais.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

UMA QUESTÃO DE VALORES

Uma cena de 2015 repete-se em 2016: o campeão brasileiro de ano anterior sofre um desmanche e perde jogadores para ligas inexpressivas, porém enriquecidas. Em 2015, o Cruzeiro perdeu duas peças fundamentais: Éverton Ribeiro, o Craque dos Brasileirões de 2013 e 2014 e o meia-atacante Ricardo Goulart; o primeiro migrou para o Al-Ahli, dos Emirados Árabes, o segundo para o chinês Guangzhou Evergrande. Os cruzeirenses sofreram com as investidas orientais no último ano também: o técnico Mano Menezes, que fez um ótimo trabalho com os mineiros nos últimos meses de 2015 e criou boas expectativas para esse ano deixou o clube de onde poderia reerguer a carreira após os insucessos na Seleção, no Flamengo e no Corinthians para assumir o milionário Shangong Luneng. No começo desse ano os corações corinthianos lamentam as saídas dos meias Jadson e Renato Augusto e  do volante Ralf. Os três foram vendidos para clubes chineses. Os três saíram após temporadas brilhantes em seus respectivos clubes. Os três cairão em esquecimento, especialmente Renato, titular na Seleção brasileira e que viveu os melhores momentos da carreira no último ano.

Esses clubes multi-milionários têm vida fácil. Observam os elencos campeões das ligas periféricas, selecionam os respectivos atletas que se destacaram (não importando a idade ou a posição), fazem a oferta salarial e pagam a multa rescisória. Não há espanto, nem choro e nem vela. Esse é o preço que nós, torcedores de clubes brasileiros mal administrados e falidos, temos que pagar: ver os craques dos nossos times partirem ao final de temporada rumo ao dinheiro fácil do Oriente. Nos últimos dias li comentários no mínimo esdrúxulos de torcedores alvinegros. Muitos não aceitaram bem a saída do camisa 8 corinthiano e logo vieram os populares "mercenário" e "mal-caráter", só para citar as principais ofensas direcionadas ao novo contratado do Beijing Guoan.

Renato fez aquilo a que foi condicionado: foi em busca do capital. Não podemos condená-lo.
O primeiro ponto é compreendermos que todo trabalhador tem o direito de escolher a melhor oferta de emprego. Se agrada a Renato Augusto receber 2 milhões de reais mensais para um campeonato tecnicamente inferior e com as datas reduzidas, que seja. Não devemos julgar o atleta pela escolha e nem lembrá-lo dos malefícios dessa mudança radical. Renato sabe de tudo isso. Sabe que perderá a vaga na Seleção Brasileira, sabe que não disputará a Libertadores, um campeonato vitrine e que lhe abriria as portas para o desejado retorno à Europa. O segundo ponto e na minha visão, o mais importante é que o leitor/torcedor entenda que o problema não está somente no atleta, no empresário, no presidente do clube, nos chineses cheios de grana ou na grande locomotiva financeira chamada futebol. O problema está em todos nós: nesse, que vos escreve, no seu vizinho, no Renato Augusto, nos chineses, em você, que lê esse texto, enfim em toda a sociedade e mais ainda, esse problema tem nome: dinheiro. Espero que poucos tenham se surpreendido com essa revelação.

Nós compreendemos um meio dominado pelo capital. Em todos os cantos fala-se de dinheiro e o quanto nós devemos nos esforçar para obtê-lo em quantidades que nos traga uma suposta melhora na qualidade de nossa vida. Não é meu objetivo bancar o filósofo contemporâneo e explanar sobre o quão falsas são essas ideias de que o dinheiro traz felicidade e sua existência é benéfica para o homem. William Shakespeare certa vez definiu o vil metal como "Metal maldito, tu, prostituta comum da humanidade, que semeias a discórdia entre os homens". Em seu "Manuscrito Econômico-Filosófico" Karl Marx expõe como o dinheiro aliena o ser humano. Quando nos entendemos como pequena peça de uma gigantesca engrenagem capitalista concluímos que praticamente por toda a nossa a vida voltamos nossa energia e atenção para o dinheiro. O estudo e o trabalho são direcionados para um futuro de riquezas. Nos está incrustada essa ilusão.

A questão de valores não se refere à quantia paga pelos chineses para as contratações dos jogadores brasileiros nas últimas temporadas. Minha intenção é tratar dos reais motivos que sustentam as mudanças desses atletas. Quero expor que é algo que vai muito além de um negócio futebolístico e de um plano de carreira. São os valores ideológicos e sociais que estão pauta. É hipocrisia criticarmos qualquer um desses profissionais, porque nós fazemos o mesmo ao longo da vida. A comparação somente muda quando tratamos dos valores financeiros, mas o combustível é o mesmo: o dinheiro. Essa mentalidade não vem de hoje, em 1503 o navegador Cristóvão Colombo escreveu o seguinte em sua "Carta à Jamaica": "O ouro é excelentíssimo: do ouro faz-se tesouro, e com ele, quem o tem, faz quanto quer no mundo, e chega a levar as almas ao paraíso." (Retirado de MARX, Karl, "O CAPITAL"). E muito antes dessa colocação o amor pelo dinheiro já pulsava no sangue da humanidade.

Somos vítimas de uma ideologia e um sistema alienantes. Sacrificamos uma vida verdadeiramente vivida para satisfazer um mercado selvagem que nos abarrota de "grandes produtos indispensáveis para o nosso cotidiano". Caminhamos cegamente rumo ao fim do arco-íris em busca do sonhado pote de ouro que poderá comprar tudo o que existe no mundo. Para os jogadores brasileiros o arco-íris está na China. Não temos o direito de julgá-los pois a nossa China é logo ali, na universidade prestigiada, no escritório ao lado, enfim, em todo o canto em que houver o maior montante financeiro.

REFERÊNCIAS




terça-feira, 5 de janeiro de 2016

DA BOLA NO PÉ PARA O MICROFONE NAS MÃOS

Para um atleta admitir que a sua carreira chegou ao fim é um passo extremamente complicado e no futebol não é diferente. Muitos são os relatos de ex-jogadores que sofreram de depressão e problemas semelhantes ao pendurarem as chuteiras, inclusive o "Rei de Roma" Paulo Roberto Falcão afirmou que "O JOGADOR DE FUTEBOL MORRE DUAS VEZES. A PRIMEIRA, QUANDO PARA DE JOGAR." Uma pequena minoria desses ex-atletas, sem rumo quando deixam os gramados, escolhem os uniformes das emissoras de televisão e se colocam na função, muitas vezes considerada "mais fácil" por eles próprios enquanto jogadores: a de jornalista/comentaristas.

Alguns dos contratados da ESPN Brasil para a Copa do Mundo de 2014
Nomes conhecidos não faltam: Falcão, a pouco citado, foi comentarista da Rede Globo por quase 15 anos. Walter Casagrande, Neto, Edmundo, Caio Ribeiro, Ronaldo Giovanelli, Roberto Rivelino e Denílson são alguns dos nomes somente da TV aberta (leia-se Globo, Band e TV Cultura) e desses, apenas o "Animal" não cobre o Estado de São Paulo. Alex, Juan Pablo Sorín, Mario Sérgio, William Machado, Roger Flores, Zé Elias, Edinho, Ricardo Rocha e Carlos Alberto Torres são alguns ex-jogadores que compõe as bancadas esportivas das emissores fechadas (ESPN/ESPN Brasil, Sportv e Fox Sports). Durante a Copa do Mundo de 2014 o número de ex-jogadores comentaristas aumentou consideravelmente.

Acima de suas personalidades, todos esses profissionais seguem a mentalidade proposta pela respectiva emissora que o emprega e depois a característica - se é que podemos definir assim - do programa em que participam. As redes abertas, especialmente a Band, trabalha com programas esportivos que se sustentam em debates polêmicos com um tom humorístico no mínimo controverso. Do outro lado, a Rede Globo traz profissionais jovens, como Caio Ribeiro, que durante as transmissões das partidas faz análises técnicas superficiais e comentários um tanto quanto desnecessários. Casão, também da emissora carioca, afirmou no programa da ESPN "Bola da Vez" que não é um estudioso tático do futebol, seu foco de aprendizado são relatos históricos do esporte e que baseia seus comentários de acordo com aquilo que vê no jogo em que está trabalhando (PARTICIPAÇÃO DE CASAGRANDE NO "B.B."). José Ferreira Neto é uma das locomotivas do departamento esportivo do Grupo Bandeirantes. Às vezes polêmico, às vezes divertido, às vezes bizarro, nem sempre sensato.  Neto recebe diversas críticas sobre a sua postura e seus comentários superficiais enquanto comentarista e apresentador. Muitas desses críticas acontecem após o ex-jogador do Corinthians cobrir jogos da UEFA Champions League. Por outro lado, o pentacampeão mundial Denílson demonstra sensatez e embasamento tático necessários para ex-jogadores que partem para o jornalismo. O bom humor do "Morcego" se aproxima do estilo descontraído esperado pela emissora em seus programas esportivos.

As emissoras pagas, especialmente a ESPN, tem forte apelo técnico e esperam menos carisma e mais conhecimento de jogo de seus contratados. Juan Pablo Sorín é o melhor exemplo de ex-jogador que conseguiu se encaixar na profissão de comentarista. Seja em transmissões ou participações no "Bate-Bola", o ídolo cruzeirense apresenta ao "fã do esporte" uma visão racional do jogo e se tornou um dos favoritos do público. Por outro lado, a Sportv, que possuí excelentes jornalistas/comentaristas como Maurício Noriega, é a casa do ex-Fluminense Roger Flores. Roger está longe de agregar conhecimento técnico nas transmissões do "canal do esporte" e se assemelha mais com os ex-jogadores comentaristas das emissoras abertas, pois parte para o lado das polêmicas que envolvem o meio. O ex-jogador e ex-técnico Mario Sérgio, da Fox Sports, é mais um dos comentaristas que caminham sobre a linha da polemicidade. Devemos ter consciência de que todas as emissoras televisas tem um público alvo para quem tentam vender um determinado produto. As abertas tratam de se aproximar do popularesco, enquanto as fechadas deixam claro que trabalham com um "público selecionado". Tudo isso deve ser levado em consideração quando analisamos o comportamento dos funcionários dessas grandes redes, junto àquilo que conhecemos acerca da personalidade de cada indivíduo.

O narrador Silvio Luiz já se posicionou contrário à contratação de ex-jogadores para o cargo de comentaristas/jornalistas. A opinião de Silvio se sustenta na ideia de que jornalistas se especializam para exercer a função e que a justificativa de que os ex-atletas estão nas cabines para "transmitir suas experiências" não é válida. Segundo o narrador, "um ex-goleiro deveria passar experiência para um jovem goleiro; um ex-especialista em cobranças de falta deveria trabalhar nos clubes passando para os jovens esse fundamento..." (ENTREVISTA DO SILVIO LUIZ). Trocando em miúdos: ex-jogadores sem formação acadêmica devem trabalhar dentro dos clubes, ao passo que aos jornalistas formados deve ser reservado o direito de trabalhar nos bastidores do ambiente esportivo brasileiro. Não podemos desconsiderar a visão do narrador, já que para qualquer tipo de trabalho é necessário uma qualificação e não apenas experiência na área pretendida. Como já foi dito aqui, Neto assumiu o posto de comentarista dos jogos da Champions League após a demissão do jornalista Mauro Beting da emissora de João Carlos Saad. Mauro dispensa comentários: racional, coeso, polido. Excelente jornalista e comentarista esportivo. Neto, mesmo tendo demonstrado interesse por livros relacionados ao esporte ainda se coloca à frente dos comentaristas esportivos, por ele tachados de "letrados da bola", pelo fato de ter tido uma carreira profissional como jogador de futebol.

De jogador polêmico a comentarista polêmico
A visão de um ex-jogador não pode ser desconsiderada, inclusive Juca Kfouri já escreveu em seu blog que "muitos deles tem a experiência que os jornalistas não tem". Eles podem explicar melhor do que ninguém o que se passa na cabeça dos atletas em um dado momento do jogo: antes de uma disputa de pênaltis ou durante o desenrolar de uma jogada. Levar ao espectador informações de como o jogo é visto através de profissionais que estiveram do lado de dentro das quatro linhas é algo importante para qualquer transmissão televisiva. Mas o fato é que jornalistas "letrados", como diria Neto e/ou ex-jogadores preparados para a função de jornalistas, expõem um ponto de vista que se aproxima mais do espectador porque a visão deles muitas vezes completa a leitura do jogo feita pelo torcedor. Creio que o ouvinte não se preocupa apenas em saber que o time dele joga recuado ou na retranca, mas também qual é o posicionamento defensivo da equipe, como ela se comporta quando é atacada e outras informações que só podem ser expostas por um profissional com maior conhecimento de jogo. O espaço ocupado pelos ex-jogadores nas cabines de televisão acontecem porque, diferente do rádio, o objetivo da transmissão é entreter. As partidas são narradas no rádio. O jogo é rápido e os comentários devem ser sucintos e bem colocados - o que não impede o rádio de ter comentaristas ruins - para que o narrador possa fazer seu trabalho de descrever a partida ao ouvinte. A questão importante para nós, espectadores, é sabermos qual é o tipo de jornalismo que queremos e a partir disso procurarmos pelo conteúdo que melhor se encaixa no nosso gosto. 

sábado, 19 de dezembro de 2015

FUTEBOL E RESISTÊNCIA - O MUNDIALITO DE 1980

Equipe do Defensor campeã uruguaia em 1976.
Em 1980, o Uruguai era definido como a "capital sul-americana da tortura". O país vivia sob um regime militar desde 1973, ano do golpe promovido pelas Forças Armadas. O terror pairava em todo território uruguaio, especialmente na capital Montevidéu. Sequestros e torturas de homens e mulheres, adultos e bebês, faziam parte do cotidiano. Não se tinha mais voz no Uruguai. O futebol, muitas vezes visto como suporte para a alienação, inclusive para a própria esquerda, fornecia apoio à resistência através de clubes como o pequeno Defensor, campeão nacional em 1976 sob a batuta de José Ricardo De Léon, técnico conhecido por sua ideologia popular e que também se mostrou um revolucionário quanto às táticas de jogo. Segundo o escritor uruguaio Mario Benedetti, "nesse ano de 1976 o clube [Defensor] viveu um momento único, que se traduziu na revolta dos oprimidos contra os senhores, a que ninguém poderia ficar indiferente, nem mesmo um adepto nacionalista como eu. Todos vibramos com a vitória dos “chicos”, estava ali a prova que a ditadura não era uma entidade inabalável" (POLÍTICA FC: DEFENSOR E A RESISTÊNCIA À DITADURA NO URUGUAI). 

Mesmo assim os militares estavam crentes de que a ditadura ainda era mais forte do que a união popular e decidiram que os dois últimos meses de 1980 consolidariam aquele governo do terror. E o futebol seria uma arma para festejar os "louros" de uma "Nova República". Ficou decidido que em 30 de novembro seria realizado um plebiscito onde o povo votaria "sim" ou "não" pela legitimação do regime militar através de uma reforma na Constituição do país. Aparentemente uma atitude democrática, mas velada por uma arrogância surreal dos generais, que acreditaram que o medo provocado pela repressão prevaleceria nas cabeças dos uruguaios. Simultaneamente foi anunciado que o Uruguai seria o país sede de um evento que reuniria todos os países até então campeões mundiais de futebol (Itália, Uruguai, Alemanha Ocidental, Inglaterra - que posteriormente se recusou a participar do campeonato, sendo substituída pela vice-campeã de 74 e 78, Holanda, além de Brasil e Argentina). A FIFA apoiava e organizaria o torneio dos campeões que contaria com craques como Sócrates, Falcão, Hugo De Léon, Diego Maradona, Daniel Passarela, Mario Alberto Kempes, Franco Baresi, Marco Tardelli.

Era o plano perfeito: a vitória nas urnas era dada como certa e a vitória da seleção uruguaia selaria o começo de uma "Nova República" (assim ficaria conhecido o regime ditatorial caso o resultado no pleito fosse favorável aos militares). As reuniões para a organização do plebiscito e do campeonato ocorriam simultaneamente, segundo historiadores ouvidos no documentário da ESPN Brasil "MEMÓRIAS DO CHUMBO - O FUTEBOL NOS TEMPOS DO CONDOR (URUGUAI)". Decidiram que o Mundialito se iniciaria em 30 de dezembro de 1980 com a final marcada para 10 de janeiro do ano seguinte. As seleções foram divididas em dois grupos (Grupo A com Uruguai, Holanda e Itália, Grupo B com Brasil, Argentina e Alemanha) e os dois melhores decidiriam o título no Estádio Centenário, em Montevidéu.

A primeira derrota dos generais veio de forma impactante e surpreendente, para eles, é claro. No plebiscito o NÃO venceu com 57% dos votos. O golpe não seria legitimado pela constituição. Ali o povo uruguaio se mostrou resistente às barbáries promovidas pelo Estado e a festa programa para as Forças Armadas no Mundialito seria marcada por uma resistência tão importante quanto a exibida nas urnas. O Uruguai, mesmo com um time limitado, era franco favorito ao título e empurrado pela grande massa popular, confirmou a vaga para a decisão ao vencer seus dois jogos e decidiria o campeonato contra o Brasil, que contava com jogadores da mágica seleção da Copa do Mundo de 1982.

Em 10 de janeiro de 1981, o que era apenas mais uma partida no Estádio Centenário de Montevidéu tornou-se uma grande mobilização popular. O jogo se encaminhava para o fim quando uma banda militar começa a tocar o hino nacional à beira do gramado. O público vaia e a música pára. Final de partida, vitória uruguaia por 2 x 1. Os militares tentam tocar o hino novamente e dessa vez o público, em êxtase pelo primeiro título da Celeste desde a Copa América de 1967, invade o gramado e obriga os instrumentistas a deixarem o campo. Para demonstrar ainda mais a coragem de um povo que há tempos sofria com a repressão, as vozes no estádio unem-se para um grito unânime: "SE VA ACABAR, SE VA ACABAR LA DICTADURA MILITAR!". Era o segundo golpe popular contra a tirania militar. Ali o futebol se mostrava à disposição da resistência. A união das massas coube/cabe no esporte. A coletividade, além da popularidade do futebol, foram importantíssimas para que os uruguaios soltassem, corajosamente, os primeiros gritos contra aquele regime cruel.

Seleção do Uruguai, campeã do Mundialito de Futebol de 1980
Três anos, muitas torturas, mortes e clamor popular depois, o Uruguai deu início ao processo de redemocratização que seria concretizado apenas em 1985. Nenhum dos mortos ao longo daquele período foi ou será esquecido. Nenhuma daquelas noites infinitas de tortura foi ou será esquecida. Nada apagará a frieza daqueles homens tiranos, ensandecidos por poder. Mas acima de tudo, a noite de 10 de janeiro de 1981 no Estádio Centenário trará um calor confortante aos corações dos uruguaios. Viva a liberdade, viva o Uruguai, viva o futebol!

No Uruguai, alguns dos passos para a redemocratização do país foram dados no gramado do Estádio Centenário, em Montevidéu

REFERÊNCIAS:

"MEMÓRIAS DO CHUMBO - O FUTEBOL NOS TEMPOS DO CONDOR (URUGUAI)", ESPN BRASIL.

- "POLÍTICA FC: DEFENSOR E A RESISTÊNCIA À DITADURA NO URUGUAI", site POLÍTICA FUTEBOL CLUBE.

- "[POR TRÁS DO GOL] "SE VA ACABAR, SE ACABAR LA DICTADURA MILITAR", site DIALÉTICA TERRESTRE.

- "EL MUNDIALITO QUE SONROJÓ A LA DICTADURA MILITAR URUGUAYA", site MARCA.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A TURMA DE 2015

A Série A do Campeonato Brasileiro de 2015 terminou com um saldo de 35 trocas de técnicos. Dos "professores" que começaram o torneio, apenas o campeão Tite "sobreviveu" à dança das cadeiras dos clubes. No ano de 2014, entre demitidos e interinos que foram remanejados, 24 técnicos perderam seus cargos. Contudo, esse ano revelou uma mudança na visão da cartolagem brasileira em relação aos técnicos. Dos 20 clubes da Série A, 6 (todos campeões brasileiros e citados nesse texto) apostaram suas fichas em "professores" da nova safra, muitos para fugirem dos altos custos das comissões técnicas "Luxemburgorianas" e/ou "Scolarianas".

A primeira grande aposta e que provavelmente proporcionou os melhores resultados aconteceu pela direção do Grêmio e tem nome e sobrenome: Roger Machado. O ex-jogador foi anunciado como técnico do tricolor gaúcho em 26 de maio para substituir Luiz Felipe Scolari, que em 2014 participou do "7 x 1" e 2015 desgastou a relação com a diretoria e a torcida gremista com atitudes extremamente controversas, como ao abandonar o banco de reservas tricolor antes do final do jogo em que o Grêmio fora derrotado pelo Veranópolis no  Gauchão 2015.  Entre Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro, Roger comandou o Grêmio em 41 jogos somando 22 vitórias, 9 empates e 10 derrotas, destacando o terceiro lugar no Brasileirão e a garantia de que o tricolor disputará a Libertadores 2016. Embora conquistar vagas para outros campeonatos não seja o objetivo do futebol, é importante destacarmos que Roger conseguiu acertar uma equipe desmotivada por um trabalho confuso de Scolari e sua comissão. Roger "contaminou" os jogadores com a sua filosofia de trabalho voltada mais para o trabalho tático do que para a motivação, característica de seu antecessor. Em seu primeiro jogo na Arena (e segundo como técnico tricolor) Roger e sua equipe derrotaram o Corinthians por 3 x 1, sendo que os primeiros dois gols tricoleres aconteceram nos 4 primeiros minutos de jogo. Além desse resultado, cabe citarmos o sonoro e histórico 5 x 0 contra o rival Internacional e a sequência de 5 vitórias seguidas entre 14 de junho e 5 de julho. Apesar dos dois jogos fracos contra o Criciúma pela Copa do Brasil (a equipe conseguiu a vaga na disputa de penalidades) e eliminação precoce nas quartas-de-final para o Fluminense em casa, Roger Machado deu competitividade à sua equipe e recuperou o bom futebol de jogadores como Douglas e Maicon, além de aproveitar jogadores jovens como Rafael Galhardo e Pedro Geromel. 

Rival do Grêmio, o Internacional começou a temporada com o uruguaio Diego Aguirre. Veio o título estadual e as semi-finais da Libertadores. Apesar desses resultados expressivos e de ter montado uma equipe interessante, pesaram contra Aguirre a eliminação para o Tigres no campeonato continental e a goleada sofrida para o Grêmio. Para seu lugar a diretoria colorada escolheu o ex-jogador e técnico campeão catarinense com o Figueirense em 2015, Argel Fucks. Argel foi descrito pela impressa gaúcha como "um técnico com profundo conhecimento tático e uma série de discussões com jogadores e imprensa" (COLORADO ZH). O estilo motivador não escondeu o conhecimento tático do ex-zagueiro, que levou a contestada equipe colorada ao quinto posto no Brasileiro e empurrou a briga por uma vaga no G-4 até a última rodada do campeonato. Talvez a maior conquista de Argel tenha sido a sua capacidade de elevar jovens jogadores ao protagonismo da equipe. Valdívia, Rodrigo Dourado, Vitinho e o agora goleiro da Seleção Brasileira, Alisson, conseguiram revelante destaque entre os medalhões D'Alessandro, Juan, Alex e Rafael Moura. O Inter de Argel pagou pelos erros contra equipes da parte de baixo da tabela; as derrotas para Avaí, Goiás e Chapecoense, todas fora de seus domínios, demonstram a falta de consistência dos colorados. O contraste dá-se nas vitórias contra Corinthians e Grêmio (ambas no Beira-Rio) e contra o Flamengo, no Rio de Janeiro. Argel Fucks comandou a equipe gaúcha em todo o segundo turno do Brasileiro e obteve 11 vitórias, 3 empates, 6 derrotas e um bom 60% de aproveitamento. O contrato de Fucks termina ao final desse mês e a expectativa é que os cartolas colorados renovem com o treinador. A impressão que fica é que Argel sente-se em casa no Beira-Rio e que tem o apoio dos gerentes de futebol e da torcida, além de conseguir manter a equipe em suas mãos. O trabalho de 2015 foi bastante interesse e é válido dizer que com as peças corretas, o Inter poderá colher bons frutos pela aposta em Argel.

A nossa lista desembarca agora no Rio de Janeiro, precisamente em São Januário. O Vasco da Gama, rebaixado à Série B pela terceira vez, foi comandado por três treinadores nessa temporada. A primeira aposta do cruzmaltino aconteceu ao final da temporada passada: Doriva foi escolhido para montar a equipe que retornava à primeira divisão e que ainda disputaria o campeonato estadual e a Copa do Brasil. O objetivo era manter o Gigante da Colina na Série A nacional. O técnico campeão paulista pelo Ituano em 2014 armou uma equipe que mantinha a posse de bola e trocava muitos passes sem conseguir finalizações ao gol. O título carioca aumentou a esperança dos vascaínos, mas a realidade se mostrou dura e Doriva não aguentou a pressão pela falta de resultados. O treinador pediu demissão após a oitava rodada do nacional, tendo 12,5% de aproveitamento: 3 empates e 5 derrotas. O time de Doriva trocou 2.828 passes em oito partidas, uma média de 353,5 por jogo, mas teve um saldo de gols de -11 (BLOG DO GARONE). Eurico e cia cometeram então, o maior erro da temporada: apostaram em Celso Roth. O começo do trabalho de Roth trouxe esperança ao torcedor. Um time que definia jogadas rapidamente e que conseguiu duas vitórias por 1 x 0: contra o rival Flamengo e o contra o Avaí. Depois disso foram 3 derrotas seguidas, vitória no clássico contra o Fluminense, mais 3 derrotas, 1 empate, 30,3% de aproveitamento e Roth demitido.

Então veio a aposta, tardia, diga-se de passagem, em Jorginho. A principal virtude do time de Jorginho foi o equilíbrio em todos os quesitos: desarmes, finalizações, roubadas de bola, faltas cometidas e passes errados. As derrotas nos três primeiros jogos não impediram Jorginho de seguir trabalhando com um time limitado. Além de motivador, o tetracampeão mundial contou com a liderança de jogadores veteranos como Rodrigo e, principalmente, Nenê, além de armar um esquema 4-3-2-1 onde Diguinho, Serginho e Andrezinho compunham o meio, o primeiro centralizado e os outros dois mais abertos, Nenê postado à frente como armador e dois ponteiros - Rafael Silva e Riascos - atacando e voltando para compor as linhas defensivas do meio cruzmaltino. A equipe encontrou o entrosamento necessário para buscar vitórias. Jorginho contornou uma situação iminente de rebaixamento para uma outra onde o Vasco da Gama pode lutar até a última rodada para fugir do Z-4. Mesmo com a queda, causada em boa parte pelas más gestões de Miranda e Dinamite, é importante destacarmos o modo como Jorginho reinventou esquemas até encaixar um Vasco que errava menos passes e chegava ao gol com a bola no chão, sem ligações diretas entre defesa e ataque. Para o Vasco, acima de tudo é necessário manter o treinador que quase o salvou do terceiro rebaixamento.

Ainda no Rio de Janeiro, vamos para as Laranjeiras e apresentamos as apostas da diretoria do Fluminense nesse ano. O primeiro selecionado foi Ricardo Drubscky, na época ex-Vitória. Lédio Carmona definiu bem a demissão de Drubscky após 8 jogos (5 vitórias e 3 derrotas): "Ao demitir Drubscky, a diretoria assume que errou ao contratá-lo" (LÉDIO: AO DEMITIR RICARDO DRUBSCKY, FLU ADMITE QUE ERROU AO CONTRATÁ-LO). Os dois meses de trabalho de Drubscky dificultam uma análise profunda; não podemos acreditar que nesse curto período ele tenha passado sua visão de jogo para seus comandados. Em maio a diretoria tricolor anunciou Enderson Moreira. Sua passagem durou até setembro e Moreira saiu com pouco mais de 47% de aproveitamento obtendo 11 vitórias, 4 empates e 11 derrotas. Vale citar que Enderson deu uma cara ofensiva ao time do Fluminense, com muita posse de bola e boa compactação no meio, além de trabalhar bem com meninos da base como Gustavo Scarpa e Gérson. Contudo, enfrentou uma certa turbulência no período em que Ronaldinho Gaúcho passou pelas Laranjeiras e os resultados pouco expressivos daquele período em diante lhe custaram o cargo.
Por fim o clube das Laranjeiras contratou Eduardo Baptista, que deixou o Sport após um ano e sete com meses, 122 jogos (55 vitórias, 30 empates e 37 derrotas), 53% de aproveitamento e dois títulos em 2014: Campeonato Pernambucano e Copa do Nordeste. Nesse momento não é cabível comentarmos os trabalhos dos três técnicos citados, especialmente pelo pouco tempo que cada um teve/tem à frente da equipe. O objetivo desse texto é expor como algumas diretorias optaram por técnicos da nova geração e especificamente no caso da direção tricolor, notamos uma diferença clara nas filosofias de trabalho que foram trazidas para o clube e isso demonstra o despreparo dos contratantes, que não escolheram com convicção a metodologia que deveria reger o grupo de atletas. Eduardo Baptista não é uma certeza mesmo tendo conquistado bons resultados no Recife e fica difícil acreditar que ele foi contratado, principalmente, pela sua visão futebolística.

Além dos nomes citados, é importante lembrarmos de "professores" como Milton Mendes, campeão da Série-A2 2015 com a Ferroviária de Araraquara e que levou o Atlético Paranaense à liderança do Campeonato Brasileiro. O trabalho de Mendes foi interessante pela filosofia do treinador em acreditar na base do clube, além de construir uma equipe com boa triangulação e velocidade na troca de passes. O técnico foi demitido não tanto pela falta de resultados, mas sim por não ser um medalhão capaz de segurar o "rojão" de uma fase oscilante. É triste saber que um profissional com tanto potencial tenha sido rebaixado ao futebol japonês.
Paulo Roberto Falcão, substituto de Eduardo Baptista no Sport, também se mostrou uma boa aposta para o final dessa temporada e para o próximo ano. Conseguiu manter a ofensividade do clube pernambucano, bem como uma defesa sólida liderada pelo capitão e ídolo Durval. Falcão tem à sua frente a melhor oportunidade de sua empreitada como técnico. Sua principal missão é ter a capacidade de apontar nomes que substituam Diego Souza e Marlone, em negociações avançadas com Fluminense e Corinthians, respectivamente.

Sem dúvida foi interessante acompanhar o trabalho desses jovens técnicos. Alguns deles possuem características semelhantes: Roger, Argel e Doriva têm menos de 45 anos, são ex-defensores medianos e trazem/trouxeram para as suas equipes uma filosofia que mescla posse de bola, triangulações e compactação defensiva, especialmente os dois primeiros. Diferenças de personalidade à parte, todos os treinadores citados nesse texto se mostram estudiosos quanto às novas táticas de jogo. Compreendemos então que o "7 x 1" mexeu com os "professores" da nova geração. Vemos uma humildade que, de imediato, é necessária para resgatarmos os áureos tempos do futebol brasileiro. Logicamente não basta apenas isso: o futebol brasileiro precisa abrasileirar os conhecimentos táticos oferecidos pelo futebol estrangeiro. Aplicá-los de forma crua não é correto pois nossos jogadores não tem (nem devem ter!) as características dos jogadores europeus. É importante o resgate da essência do futebol tupiniquim: jogadores que driblem em direção ao gol, que se arrisquem com passes milimétricos, que justifiquem a "ousadia" do lema boleiro "ousadia e alegria".

Quanto aos "professores", acredito que é bom pontuar que estudo nunca é demais. No futebol essa máxima se sustenta quando olhamos para as nossas últimas participações em Copas do Mundo. A temporada 2015 trouxe um pequeno, porém importante suspiro quanto aos comandantes que futuramente assumirão os postos deixados por Scolari, Parreira, Luxemburgo e cia. Liderados por Tite, essa nova geração deve compreender, em primeiro lugar, o tipo de jogador que é formado por aqui, depois absorver o máximo de conhecimentos táticos possíveis, para enfim, adaptá-los ao nosso tipo de jogador, tanto nos clubes quanto na Seleção Brasileira. Como disse na introdução do último parágrafo, foi interessante acompanhar os trabalhos desses jovens treinados e devemos encarar a chegada dessa geração como um benefício para o cenário do futebol nacional. Contudo, fica a pergunta sobre as razões pelas quais os ditos clubes grandes ofereceram oportunidades para esses profissionais: os cartolas conheciam seus futuros contratados ou simplesmente lhes faltou dinheiro em caixa para os medalhões? Entre mortos e feridos quem respira é o futebol brasileiro, que vê surgirem opções para mudanças, ao menos nos bancos de reservas.