terça-feira, 5 de janeiro de 2016

DA BOLA NO PÉ PARA O MICROFONE NAS MÃOS

Para um atleta admitir que a sua carreira chegou ao fim é um passo extremamente complicado e no futebol não é diferente. Muitos são os relatos de ex-jogadores que sofreram de depressão e problemas semelhantes ao pendurarem as chuteiras, inclusive o "Rei de Roma" Paulo Roberto Falcão afirmou que "O JOGADOR DE FUTEBOL MORRE DUAS VEZES. A PRIMEIRA, QUANDO PARA DE JOGAR." Uma pequena minoria desses ex-atletas, sem rumo quando deixam os gramados, escolhem os uniformes das emissoras de televisão e se colocam na função, muitas vezes considerada "mais fácil" por eles próprios enquanto jogadores: a de jornalista/comentaristas.

Alguns dos contratados da ESPN Brasil para a Copa do Mundo de 2014
Nomes conhecidos não faltam: Falcão, a pouco citado, foi comentarista da Rede Globo por quase 15 anos. Walter Casagrande, Neto, Edmundo, Caio Ribeiro, Ronaldo Giovanelli, Roberto Rivelino e Denílson são alguns dos nomes somente da TV aberta (leia-se Globo, Band e TV Cultura) e desses, apenas o "Animal" não cobre o Estado de São Paulo. Alex, Juan Pablo Sorín, Mario Sérgio, William Machado, Roger Flores, Zé Elias, Edinho, Ricardo Rocha e Carlos Alberto Torres são alguns ex-jogadores que compõe as bancadas esportivas das emissores fechadas (ESPN/ESPN Brasil, Sportv e Fox Sports). Durante a Copa do Mundo de 2014 o número de ex-jogadores comentaristas aumentou consideravelmente.

Acima de suas personalidades, todos esses profissionais seguem a mentalidade proposta pela respectiva emissora que o emprega e depois a característica - se é que podemos definir assim - do programa em que participam. As redes abertas, especialmente a Band, trabalha com programas esportivos que se sustentam em debates polêmicos com um tom humorístico no mínimo controverso. Do outro lado, a Rede Globo traz profissionais jovens, como Caio Ribeiro, que durante as transmissões das partidas faz análises técnicas superficiais e comentários um tanto quanto desnecessários. Casão, também da emissora carioca, afirmou no programa da ESPN "Bola da Vez" que não é um estudioso tático do futebol, seu foco de aprendizado são relatos históricos do esporte e que baseia seus comentários de acordo com aquilo que vê no jogo em que está trabalhando (PARTICIPAÇÃO DE CASAGRANDE NO "B.B."). José Ferreira Neto é uma das locomotivas do departamento esportivo do Grupo Bandeirantes. Às vezes polêmico, às vezes divertido, às vezes bizarro, nem sempre sensato.  Neto recebe diversas críticas sobre a sua postura e seus comentários superficiais enquanto comentarista e apresentador. Muitas desses críticas acontecem após o ex-jogador do Corinthians cobrir jogos da UEFA Champions League. Por outro lado, o pentacampeão mundial Denílson demonstra sensatez e embasamento tático necessários para ex-jogadores que partem para o jornalismo. O bom humor do "Morcego" se aproxima do estilo descontraído esperado pela emissora em seus programas esportivos.

As emissoras pagas, especialmente a ESPN, tem forte apelo técnico e esperam menos carisma e mais conhecimento de jogo de seus contratados. Juan Pablo Sorín é o melhor exemplo de ex-jogador que conseguiu se encaixar na profissão de comentarista. Seja em transmissões ou participações no "Bate-Bola", o ídolo cruzeirense apresenta ao "fã do esporte" uma visão racional do jogo e se tornou um dos favoritos do público. Por outro lado, a Sportv, que possuí excelentes jornalistas/comentaristas como Maurício Noriega, é a casa do ex-Fluminense Roger Flores. Roger está longe de agregar conhecimento técnico nas transmissões do "canal do esporte" e se assemelha mais com os ex-jogadores comentaristas das emissoras abertas, pois parte para o lado das polêmicas que envolvem o meio. O ex-jogador e ex-técnico Mario Sérgio, da Fox Sports, é mais um dos comentaristas que caminham sobre a linha da polemicidade. Devemos ter consciência de que todas as emissoras televisas tem um público alvo para quem tentam vender um determinado produto. As abertas tratam de se aproximar do popularesco, enquanto as fechadas deixam claro que trabalham com um "público selecionado". Tudo isso deve ser levado em consideração quando analisamos o comportamento dos funcionários dessas grandes redes, junto àquilo que conhecemos acerca da personalidade de cada indivíduo.

O narrador Silvio Luiz já se posicionou contrário à contratação de ex-jogadores para o cargo de comentaristas/jornalistas. A opinião de Silvio se sustenta na ideia de que jornalistas se especializam para exercer a função e que a justificativa de que os ex-atletas estão nas cabines para "transmitir suas experiências" não é válida. Segundo o narrador, "um ex-goleiro deveria passar experiência para um jovem goleiro; um ex-especialista em cobranças de falta deveria trabalhar nos clubes passando para os jovens esse fundamento..." (ENTREVISTA DO SILVIO LUIZ). Trocando em miúdos: ex-jogadores sem formação acadêmica devem trabalhar dentro dos clubes, ao passo que aos jornalistas formados deve ser reservado o direito de trabalhar nos bastidores do ambiente esportivo brasileiro. Não podemos desconsiderar a visão do narrador, já que para qualquer tipo de trabalho é necessário uma qualificação e não apenas experiência na área pretendida. Como já foi dito aqui, Neto assumiu o posto de comentarista dos jogos da Champions League após a demissão do jornalista Mauro Beting da emissora de João Carlos Saad. Mauro dispensa comentários: racional, coeso, polido. Excelente jornalista e comentarista esportivo. Neto, mesmo tendo demonstrado interesse por livros relacionados ao esporte ainda se coloca à frente dos comentaristas esportivos, por ele tachados de "letrados da bola", pelo fato de ter tido uma carreira profissional como jogador de futebol.

De jogador polêmico a comentarista polêmico
A visão de um ex-jogador não pode ser desconsiderada, inclusive Juca Kfouri já escreveu em seu blog que "muitos deles tem a experiência que os jornalistas não tem". Eles podem explicar melhor do que ninguém o que se passa na cabeça dos atletas em um dado momento do jogo: antes de uma disputa de pênaltis ou durante o desenrolar de uma jogada. Levar ao espectador informações de como o jogo é visto através de profissionais que estiveram do lado de dentro das quatro linhas é algo importante para qualquer transmissão televisiva. Mas o fato é que jornalistas "letrados", como diria Neto e/ou ex-jogadores preparados para a função de jornalistas, expõem um ponto de vista que se aproxima mais do espectador porque a visão deles muitas vezes completa a leitura do jogo feita pelo torcedor. Creio que o ouvinte não se preocupa apenas em saber que o time dele joga recuado ou na retranca, mas também qual é o posicionamento defensivo da equipe, como ela se comporta quando é atacada e outras informações que só podem ser expostas por um profissional com maior conhecimento de jogo. O espaço ocupado pelos ex-jogadores nas cabines de televisão acontecem porque, diferente do rádio, o objetivo da transmissão é entreter. As partidas são narradas no rádio. O jogo é rápido e os comentários devem ser sucintos e bem colocados - o que não impede o rádio de ter comentaristas ruins - para que o narrador possa fazer seu trabalho de descrever a partida ao ouvinte. A questão importante para nós, espectadores, é sabermos qual é o tipo de jornalismo que queremos e a partir disso procurarmos pelo conteúdo que melhor se encaixa no nosso gosto. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário