Uma cena de 2015 repete-se em 2016: o campeão brasileiro de ano anterior sofre um desmanche e perde jogadores para ligas inexpressivas, porém enriquecidas. Em 2015, o Cruzeiro perdeu duas peças fundamentais: Éverton Ribeiro, o Craque dos Brasileirões de 2013 e 2014 e o meia-atacante Ricardo Goulart; o primeiro migrou para o Al-Ahli, dos Emirados Árabes, o segundo para o chinês Guangzhou Evergrande. Os cruzeirenses sofreram com as investidas orientais no último ano também: o técnico Mano Menezes, que fez um ótimo trabalho com os mineiros nos últimos meses de 2015 e criou boas expectativas para esse ano deixou o clube de onde poderia reerguer a carreira após os insucessos na Seleção, no Flamengo e no Corinthians para assumir o milionário Shangong Luneng. No começo desse ano os corações corinthianos lamentam as saídas dos meias Jadson e Renato Augusto e do volante Ralf. Os três foram vendidos para clubes chineses. Os três saíram após temporadas brilhantes em seus respectivos clubes. Os três cairão em esquecimento, especialmente Renato, titular na Seleção brasileira e que viveu os melhores momentos da carreira no último ano.
Esses clubes multi-milionários têm vida fácil. Observam os elencos campeões das ligas periféricas, selecionam os respectivos atletas que se destacaram (não importando a idade ou a posição), fazem a oferta salarial e pagam a multa rescisória. Não há espanto, nem choro e nem vela. Esse é o preço que nós, torcedores de clubes brasileiros mal administrados e falidos, temos que pagar: ver os craques dos nossos times partirem ao final de temporada rumo ao dinheiro fácil do Oriente. Nos últimos dias li comentários no mínimo esdrúxulos de torcedores alvinegros. Muitos não aceitaram bem a saída do camisa 8 corinthiano e logo vieram os populares "mercenário" e "mal-caráter", só para citar as principais ofensas direcionadas ao novo contratado do Beijing Guoan.
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| Renato fez aquilo a que foi condicionado: foi em busca do capital. Não podemos condená-lo. |
O primeiro ponto é compreendermos que todo trabalhador tem o direito de escolher a melhor oferta de emprego. Se agrada a Renato Augusto receber 2 milhões de reais mensais para um campeonato tecnicamente inferior e com as datas reduzidas, que seja. Não devemos julgar o atleta pela escolha e nem lembrá-lo dos malefícios dessa mudança radical. Renato sabe de tudo isso. Sabe que perderá a vaga na Seleção Brasileira, sabe que não disputará a Libertadores, um campeonato vitrine e que lhe abriria as portas para o desejado retorno à Europa. O segundo ponto e na minha visão, o mais importante é que o leitor/torcedor entenda que o problema não está somente no atleta, no empresário, no presidente do clube, nos chineses cheios de grana ou na grande locomotiva financeira chamada futebol. O problema está em todos nós: nesse, que vos escreve, no seu vizinho, no Renato Augusto, nos chineses, em você, que lê esse texto, enfim em toda a sociedade e mais ainda, esse problema tem nome: dinheiro. Espero que poucos tenham se surpreendido com essa revelação.
Nós compreendemos um meio dominado pelo capital. Em todos os cantos fala-se de dinheiro e o quanto nós devemos nos esforçar para obtê-lo em quantidades que nos traga uma suposta melhora na qualidade de nossa vida. Não é meu objetivo bancar o filósofo contemporâneo e explanar sobre o quão falsas são essas ideias de que o dinheiro traz felicidade e sua existência é benéfica para o homem. William Shakespeare certa vez definiu o vil metal como "Metal maldito, tu, prostituta comum da humanidade, que semeias a discórdia entre os homens". Em seu "Manuscrito Econômico-Filosófico" Karl Marx expõe como o dinheiro aliena o ser humano. Quando nos entendemos como pequena peça de uma gigantesca engrenagem capitalista concluímos que praticamente por toda a nossa a vida voltamos nossa energia e atenção para o dinheiro. O estudo e o trabalho são direcionados para um futuro de riquezas. Nos está incrustada essa ilusão.
A questão de valores não se refere à quantia paga pelos chineses para as contratações dos jogadores brasileiros nas últimas temporadas. Minha intenção é tratar dos reais motivos que sustentam as mudanças desses atletas. Quero expor que é algo que vai muito além de um negócio futebolístico e de um plano de carreira. São os valores ideológicos e sociais que estão pauta. É hipocrisia criticarmos qualquer um desses profissionais, porque nós fazemos o mesmo ao longo da vida. A comparação somente muda quando tratamos dos valores financeiros, mas o combustível é o mesmo: o dinheiro. Essa mentalidade não vem de hoje, em 1503 o navegador Cristóvão Colombo escreveu o seguinte em sua "Carta à Jamaica": "O ouro é excelentíssimo: do ouro faz-se tesouro, e com ele, quem o tem, faz quanto quer no mundo, e chega a levar as almas ao paraíso." (Retirado de MARX, Karl, "O CAPITAL"). E muito antes dessa colocação o amor pelo dinheiro já pulsava no sangue da humanidade.
Somos vítimas de uma ideologia e um sistema alienantes. Sacrificamos uma vida verdadeiramente vivida para satisfazer um mercado selvagem que nos abarrota de "grandes produtos indispensáveis para o nosso cotidiano". Caminhamos cegamente rumo ao fim do arco-íris em busca do sonhado pote de ouro que poderá comprar tudo o que existe no mundo. Para os jogadores brasileiros o arco-íris está na China. Não temos o direito de julgá-los pois a nossa China é logo ali, na universidade prestigiada, no escritório ao lado, enfim, em todo o canto em que houver o maior montante financeiro.
Somos vítimas de uma ideologia e um sistema alienantes. Sacrificamos uma vida verdadeiramente vivida para satisfazer um mercado selvagem que nos abarrota de "grandes produtos indispensáveis para o nosso cotidiano". Caminhamos cegamente rumo ao fim do arco-íris em busca do sonhado pote de ouro que poderá comprar tudo o que existe no mundo. Para os jogadores brasileiros o arco-íris está na China. Não temos o direito de julgá-los pois a nossa China é logo ali, na universidade prestigiada, no escritório ao lado, enfim, em todo o canto em que houver o maior montante financeiro.
REFERÊNCIAS

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