Futebol e política. Uma combinação fantástica e pouco estudada. O filme em questão é disponibilizado pelo Netflix e apresenta os bons e maus momentos da Seleção Francesa de Futebol em um período onde se instaurou uma crise de identidade em toda a nação francesa. O filme explica como a xenofobia e as ondas de imigrações foram conduzidas pelos governantes franceses em um momento onde o Escrete nacional vivia o seu auge esportivo, liderados por Zinediné Zidane, jogador de origem argelina e outros atletas de origens africanas. O modo como o futebol compõe o discurso político é sensacional. Por exemplo, o jogo entre França x Argélia onde mais de 200 torcedores argelinos invadem o gramado, ocorrido duas semanas após o 11 de setembro de 2001, sustenta o discurso dos conservadores (“Restaurar a ordem na França”) da Frente Nacional durante as eleições presidenciais francesas de 2002.
A derrocada e reconstrução da seleção Francesa entre 2002 e 2006 ocorrem simultaneamente às Revoltas de 2005, onde “as periferias francesas queimaram por 10 dias” logo após a morte de dois adolescentes não brancos que fugiam de uma blitz da polícia francesa. As políticas de integração mal feitas ao longo daqueles últimos anos resultaram em uma revolta coletiva das classes mais baixas do país e nesse momento, sem o sucesso futebolístico de outrora, o governo francês se viu sem um escudo que favorecesse o seu próprio marketing. Combinado a isso, a insatisfação de alguns atletas com o posicionamento do Estado perante aos chamados “marginais” (leia-se negros e descendentes de árabes) reforçou a má imagem do governo do país. A (re)e(des)construção do mito “negro- branco-árabe”, utilizada para descrever o espírito da Seleção Francesa ao longo dos anos, especialmente durante as Copas Mundiais de 1998 e 2006, é esmiuçada ao longo do filme e espelhada através da sociedade francesa, sendo a última incapaz de compreender sua própria identidade nacional e, representada por um governo contraditório (o de Nicolas Sarkozy), também incapaz de compreender a diversidade social que crescia no país e no restante do continente europeu.
A crise durante a Copa do Mundo de 2010 surgiu como assunto de Estado, onde Sarkozy repreende o atacante Nicolas Anelka, por um suposto ato de indisciplina do atleta contra o técnico Raymond Domenech. A greve dos jogadores foi vista com maus olhos por boa parte dos franceses e a Seleção Francesa acabou eliminada ainda na fase de grupos do Mundial. A segunda vez em três Copas. Outra vez o povo francês aponta os culpados: três atletas de descendência africana são considerados os líderes da greve dos jogadores e culpados pelo fiasco em 2010. A noção de identidade e o patriotismo tornam-se pautas ainda mais constantes na sociedade e dentro da Federação Francesa e da equipe de futebol. As medidas discriminatórias debatidas nos escritórios da F.F.F. dividiram o país e o espírito “branco-negro-árabe” caia por terra juntamente com o trabalho do técnico Laurent Blanc, após a eliminação dos Azuis na Eurocopa de 2012. A caminho da Copa do Mundo de 2014, a sociedade francesa encontra um novo alvo para as críticas: o atacante Karim Benzema, nascido na Argélia. As falas de influentes políticos conservadores fomentam o senso comum de que o insucesso da seleção se dá pela falta de patriotismo dos jogadores com dupla-cidadania. O novo insucesso em Copas não abala a nova geração de jogadores franceses.
A seleção se torna o símbolo do espírito de união para toda a sociedade francesa logo após os atentados à sede da revista Charlie Hebdo e à boate Bataclan. Novamente os Bleus estão nos braços do seu povo. Em meio aos recentes atentados terroristas ocorridos no país, o selecionado francês chega à final da Eurocopa de 2016 (sediada na França) sem o atacante Karim Benzema, afastado do grupo por problemas com a justiça francesa. O mesmo Benzema relaciona o seu afastamento do time com o racismo presente em parte da sociedade do país. A derrota para Portugal na final do torneio é mero detalhe. O material humano presente na Seleção Francesa representa a sociedade francesa. “Negros-árabes-brancos” nunca foi tão real e cabe à sociedade expurgar de si todo e qualquer tipo de pré-conceito existente em seu seio.

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