sábado, 19 de dezembro de 2015

FUTEBOL E RESISTÊNCIA - O MUNDIALITO DE 1980

Equipe do Defensor campeã uruguaia em 1976.
Em 1980, o Uruguai era definido como a "capital sul-americana da tortura". O país vivia sob um regime militar desde 1973, ano do golpe promovido pelas Forças Armadas. O terror pairava em todo território uruguaio, especialmente na capital Montevidéu. Sequestros e torturas de homens e mulheres, adultos e bebês, faziam parte do cotidiano. Não se tinha mais voz no Uruguai. O futebol, muitas vezes visto como suporte para a alienação, inclusive para a própria esquerda, fornecia apoio à resistência através de clubes como o pequeno Defensor, campeão nacional em 1976 sob a batuta de José Ricardo De Léon, técnico conhecido por sua ideologia popular e que também se mostrou um revolucionário quanto às táticas de jogo. Segundo o escritor uruguaio Mario Benedetti, "nesse ano de 1976 o clube [Defensor] viveu um momento único, que se traduziu na revolta dos oprimidos contra os senhores, a que ninguém poderia ficar indiferente, nem mesmo um adepto nacionalista como eu. Todos vibramos com a vitória dos “chicos”, estava ali a prova que a ditadura não era uma entidade inabalável" (POLÍTICA FC: DEFENSOR E A RESISTÊNCIA À DITADURA NO URUGUAI). 

Mesmo assim os militares estavam crentes de que a ditadura ainda era mais forte do que a união popular e decidiram que os dois últimos meses de 1980 consolidariam aquele governo do terror. E o futebol seria uma arma para festejar os "louros" de uma "Nova República". Ficou decidido que em 30 de novembro seria realizado um plebiscito onde o povo votaria "sim" ou "não" pela legitimação do regime militar através de uma reforma na Constituição do país. Aparentemente uma atitude democrática, mas velada por uma arrogância surreal dos generais, que acreditaram que o medo provocado pela repressão prevaleceria nas cabeças dos uruguaios. Simultaneamente foi anunciado que o Uruguai seria o país sede de um evento que reuniria todos os países até então campeões mundiais de futebol (Itália, Uruguai, Alemanha Ocidental, Inglaterra - que posteriormente se recusou a participar do campeonato, sendo substituída pela vice-campeã de 74 e 78, Holanda, além de Brasil e Argentina). A FIFA apoiava e organizaria o torneio dos campeões que contaria com craques como Sócrates, Falcão, Hugo De Léon, Diego Maradona, Daniel Passarela, Mario Alberto Kempes, Franco Baresi, Marco Tardelli.

Era o plano perfeito: a vitória nas urnas era dada como certa e a vitória da seleção uruguaia selaria o começo de uma "Nova República" (assim ficaria conhecido o regime ditatorial caso o resultado no pleito fosse favorável aos militares). As reuniões para a organização do plebiscito e do campeonato ocorriam simultaneamente, segundo historiadores ouvidos no documentário da ESPN Brasil "MEMÓRIAS DO CHUMBO - O FUTEBOL NOS TEMPOS DO CONDOR (URUGUAI)". Decidiram que o Mundialito se iniciaria em 30 de dezembro de 1980 com a final marcada para 10 de janeiro do ano seguinte. As seleções foram divididas em dois grupos (Grupo A com Uruguai, Holanda e Itália, Grupo B com Brasil, Argentina e Alemanha) e os dois melhores decidiriam o título no Estádio Centenário, em Montevidéu.

A primeira derrota dos generais veio de forma impactante e surpreendente, para eles, é claro. No plebiscito o NÃO venceu com 57% dos votos. O golpe não seria legitimado pela constituição. Ali o povo uruguaio se mostrou resistente às barbáries promovidas pelo Estado e a festa programa para as Forças Armadas no Mundialito seria marcada por uma resistência tão importante quanto a exibida nas urnas. O Uruguai, mesmo com um time limitado, era franco favorito ao título e empurrado pela grande massa popular, confirmou a vaga para a decisão ao vencer seus dois jogos e decidiria o campeonato contra o Brasil, que contava com jogadores da mágica seleção da Copa do Mundo de 1982.

Em 10 de janeiro de 1981, o que era apenas mais uma partida no Estádio Centenário de Montevidéu tornou-se uma grande mobilização popular. O jogo se encaminhava para o fim quando uma banda militar começa a tocar o hino nacional à beira do gramado. O público vaia e a música pára. Final de partida, vitória uruguaia por 2 x 1. Os militares tentam tocar o hino novamente e dessa vez o público, em êxtase pelo primeiro título da Celeste desde a Copa América de 1967, invade o gramado e obriga os instrumentistas a deixarem o campo. Para demonstrar ainda mais a coragem de um povo que há tempos sofria com a repressão, as vozes no estádio unem-se para um grito unânime: "SE VA ACABAR, SE VA ACABAR LA DICTADURA MILITAR!". Era o segundo golpe popular contra a tirania militar. Ali o futebol se mostrava à disposição da resistência. A união das massas coube/cabe no esporte. A coletividade, além da popularidade do futebol, foram importantíssimas para que os uruguaios soltassem, corajosamente, os primeiros gritos contra aquele regime cruel.

Seleção do Uruguai, campeã do Mundialito de Futebol de 1980
Três anos, muitas torturas, mortes e clamor popular depois, o Uruguai deu início ao processo de redemocratização que seria concretizado apenas em 1985. Nenhum dos mortos ao longo daquele período foi ou será esquecido. Nenhuma daquelas noites infinitas de tortura foi ou será esquecida. Nada apagará a frieza daqueles homens tiranos, ensandecidos por poder. Mas acima de tudo, a noite de 10 de janeiro de 1981 no Estádio Centenário trará um calor confortante aos corações dos uruguaios. Viva a liberdade, viva o Uruguai, viva o futebol!

No Uruguai, alguns dos passos para a redemocratização do país foram dados no gramado do Estádio Centenário, em Montevidéu

REFERÊNCIAS:

"MEMÓRIAS DO CHUMBO - O FUTEBOL NOS TEMPOS DO CONDOR (URUGUAI)", ESPN BRASIL.

- "POLÍTICA FC: DEFENSOR E A RESISTÊNCIA À DITADURA NO URUGUAI", site POLÍTICA FUTEBOL CLUBE.

- "[POR TRÁS DO GOL] "SE VA ACABAR, SE ACABAR LA DICTADURA MILITAR", site DIALÉTICA TERRESTRE.

- "EL MUNDIALITO QUE SONROJÓ A LA DICTADURA MILITAR URUGUAYA", site MARCA.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A TURMA DE 2015

A Série A do Campeonato Brasileiro de 2015 terminou com um saldo de 35 trocas de técnicos. Dos "professores" que começaram o torneio, apenas o campeão Tite "sobreviveu" à dança das cadeiras dos clubes. No ano de 2014, entre demitidos e interinos que foram remanejados, 24 técnicos perderam seus cargos. Contudo, esse ano revelou uma mudança na visão da cartolagem brasileira em relação aos técnicos. Dos 20 clubes da Série A, 6 (todos campeões brasileiros e citados nesse texto) apostaram suas fichas em "professores" da nova safra, muitos para fugirem dos altos custos das comissões técnicas "Luxemburgorianas" e/ou "Scolarianas".

A primeira grande aposta e que provavelmente proporcionou os melhores resultados aconteceu pela direção do Grêmio e tem nome e sobrenome: Roger Machado. O ex-jogador foi anunciado como técnico do tricolor gaúcho em 26 de maio para substituir Luiz Felipe Scolari, que em 2014 participou do "7 x 1" e 2015 desgastou a relação com a diretoria e a torcida gremista com atitudes extremamente controversas, como ao abandonar o banco de reservas tricolor antes do final do jogo em que o Grêmio fora derrotado pelo Veranópolis no  Gauchão 2015.  Entre Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro, Roger comandou o Grêmio em 41 jogos somando 22 vitórias, 9 empates e 10 derrotas, destacando o terceiro lugar no Brasileirão e a garantia de que o tricolor disputará a Libertadores 2016. Embora conquistar vagas para outros campeonatos não seja o objetivo do futebol, é importante destacarmos que Roger conseguiu acertar uma equipe desmotivada por um trabalho confuso de Scolari e sua comissão. Roger "contaminou" os jogadores com a sua filosofia de trabalho voltada mais para o trabalho tático do que para a motivação, característica de seu antecessor. Em seu primeiro jogo na Arena (e segundo como técnico tricolor) Roger e sua equipe derrotaram o Corinthians por 3 x 1, sendo que os primeiros dois gols tricoleres aconteceram nos 4 primeiros minutos de jogo. Além desse resultado, cabe citarmos o sonoro e histórico 5 x 0 contra o rival Internacional e a sequência de 5 vitórias seguidas entre 14 de junho e 5 de julho. Apesar dos dois jogos fracos contra o Criciúma pela Copa do Brasil (a equipe conseguiu a vaga na disputa de penalidades) e eliminação precoce nas quartas-de-final para o Fluminense em casa, Roger Machado deu competitividade à sua equipe e recuperou o bom futebol de jogadores como Douglas e Maicon, além de aproveitar jogadores jovens como Rafael Galhardo e Pedro Geromel. 

Rival do Grêmio, o Internacional começou a temporada com o uruguaio Diego Aguirre. Veio o título estadual e as semi-finais da Libertadores. Apesar desses resultados expressivos e de ter montado uma equipe interessante, pesaram contra Aguirre a eliminação para o Tigres no campeonato continental e a goleada sofrida para o Grêmio. Para seu lugar a diretoria colorada escolheu o ex-jogador e técnico campeão catarinense com o Figueirense em 2015, Argel Fucks. Argel foi descrito pela impressa gaúcha como "um técnico com profundo conhecimento tático e uma série de discussões com jogadores e imprensa" (COLORADO ZH). O estilo motivador não escondeu o conhecimento tático do ex-zagueiro, que levou a contestada equipe colorada ao quinto posto no Brasileiro e empurrou a briga por uma vaga no G-4 até a última rodada do campeonato. Talvez a maior conquista de Argel tenha sido a sua capacidade de elevar jovens jogadores ao protagonismo da equipe. Valdívia, Rodrigo Dourado, Vitinho e o agora goleiro da Seleção Brasileira, Alisson, conseguiram revelante destaque entre os medalhões D'Alessandro, Juan, Alex e Rafael Moura. O Inter de Argel pagou pelos erros contra equipes da parte de baixo da tabela; as derrotas para Avaí, Goiás e Chapecoense, todas fora de seus domínios, demonstram a falta de consistência dos colorados. O contraste dá-se nas vitórias contra Corinthians e Grêmio (ambas no Beira-Rio) e contra o Flamengo, no Rio de Janeiro. Argel Fucks comandou a equipe gaúcha em todo o segundo turno do Brasileiro e obteve 11 vitórias, 3 empates, 6 derrotas e um bom 60% de aproveitamento. O contrato de Fucks termina ao final desse mês e a expectativa é que os cartolas colorados renovem com o treinador. A impressão que fica é que Argel sente-se em casa no Beira-Rio e que tem o apoio dos gerentes de futebol e da torcida, além de conseguir manter a equipe em suas mãos. O trabalho de 2015 foi bastante interesse e é válido dizer que com as peças corretas, o Inter poderá colher bons frutos pela aposta em Argel.

A nossa lista desembarca agora no Rio de Janeiro, precisamente em São Januário. O Vasco da Gama, rebaixado à Série B pela terceira vez, foi comandado por três treinadores nessa temporada. A primeira aposta do cruzmaltino aconteceu ao final da temporada passada: Doriva foi escolhido para montar a equipe que retornava à primeira divisão e que ainda disputaria o campeonato estadual e a Copa do Brasil. O objetivo era manter o Gigante da Colina na Série A nacional. O técnico campeão paulista pelo Ituano em 2014 armou uma equipe que mantinha a posse de bola e trocava muitos passes sem conseguir finalizações ao gol. O título carioca aumentou a esperança dos vascaínos, mas a realidade se mostrou dura e Doriva não aguentou a pressão pela falta de resultados. O treinador pediu demissão após a oitava rodada do nacional, tendo 12,5% de aproveitamento: 3 empates e 5 derrotas. O time de Doriva trocou 2.828 passes em oito partidas, uma média de 353,5 por jogo, mas teve um saldo de gols de -11 (BLOG DO GARONE). Eurico e cia cometeram então, o maior erro da temporada: apostaram em Celso Roth. O começo do trabalho de Roth trouxe esperança ao torcedor. Um time que definia jogadas rapidamente e que conseguiu duas vitórias por 1 x 0: contra o rival Flamengo e o contra o Avaí. Depois disso foram 3 derrotas seguidas, vitória no clássico contra o Fluminense, mais 3 derrotas, 1 empate, 30,3% de aproveitamento e Roth demitido.

Então veio a aposta, tardia, diga-se de passagem, em Jorginho. A principal virtude do time de Jorginho foi o equilíbrio em todos os quesitos: desarmes, finalizações, roubadas de bola, faltas cometidas e passes errados. As derrotas nos três primeiros jogos não impediram Jorginho de seguir trabalhando com um time limitado. Além de motivador, o tetracampeão mundial contou com a liderança de jogadores veteranos como Rodrigo e, principalmente, Nenê, além de armar um esquema 4-3-2-1 onde Diguinho, Serginho e Andrezinho compunham o meio, o primeiro centralizado e os outros dois mais abertos, Nenê postado à frente como armador e dois ponteiros - Rafael Silva e Riascos - atacando e voltando para compor as linhas defensivas do meio cruzmaltino. A equipe encontrou o entrosamento necessário para buscar vitórias. Jorginho contornou uma situação iminente de rebaixamento para uma outra onde o Vasco da Gama pode lutar até a última rodada para fugir do Z-4. Mesmo com a queda, causada em boa parte pelas más gestões de Miranda e Dinamite, é importante destacarmos o modo como Jorginho reinventou esquemas até encaixar um Vasco que errava menos passes e chegava ao gol com a bola no chão, sem ligações diretas entre defesa e ataque. Para o Vasco, acima de tudo é necessário manter o treinador que quase o salvou do terceiro rebaixamento.

Ainda no Rio de Janeiro, vamos para as Laranjeiras e apresentamos as apostas da diretoria do Fluminense nesse ano. O primeiro selecionado foi Ricardo Drubscky, na época ex-Vitória. Lédio Carmona definiu bem a demissão de Drubscky após 8 jogos (5 vitórias e 3 derrotas): "Ao demitir Drubscky, a diretoria assume que errou ao contratá-lo" (LÉDIO: AO DEMITIR RICARDO DRUBSCKY, FLU ADMITE QUE ERROU AO CONTRATÁ-LO). Os dois meses de trabalho de Drubscky dificultam uma análise profunda; não podemos acreditar que nesse curto período ele tenha passado sua visão de jogo para seus comandados. Em maio a diretoria tricolor anunciou Enderson Moreira. Sua passagem durou até setembro e Moreira saiu com pouco mais de 47% de aproveitamento obtendo 11 vitórias, 4 empates e 11 derrotas. Vale citar que Enderson deu uma cara ofensiva ao time do Fluminense, com muita posse de bola e boa compactação no meio, além de trabalhar bem com meninos da base como Gustavo Scarpa e Gérson. Contudo, enfrentou uma certa turbulência no período em que Ronaldinho Gaúcho passou pelas Laranjeiras e os resultados pouco expressivos daquele período em diante lhe custaram o cargo.
Por fim o clube das Laranjeiras contratou Eduardo Baptista, que deixou o Sport após um ano e sete com meses, 122 jogos (55 vitórias, 30 empates e 37 derrotas), 53% de aproveitamento e dois títulos em 2014: Campeonato Pernambucano e Copa do Nordeste. Nesse momento não é cabível comentarmos os trabalhos dos três técnicos citados, especialmente pelo pouco tempo que cada um teve/tem à frente da equipe. O objetivo desse texto é expor como algumas diretorias optaram por técnicos da nova geração e especificamente no caso da direção tricolor, notamos uma diferença clara nas filosofias de trabalho que foram trazidas para o clube e isso demonstra o despreparo dos contratantes, que não escolheram com convicção a metodologia que deveria reger o grupo de atletas. Eduardo Baptista não é uma certeza mesmo tendo conquistado bons resultados no Recife e fica difícil acreditar que ele foi contratado, principalmente, pela sua visão futebolística.

Além dos nomes citados, é importante lembrarmos de "professores" como Milton Mendes, campeão da Série-A2 2015 com a Ferroviária de Araraquara e que levou o Atlético Paranaense à liderança do Campeonato Brasileiro. O trabalho de Mendes foi interessante pela filosofia do treinador em acreditar na base do clube, além de construir uma equipe com boa triangulação e velocidade na troca de passes. O técnico foi demitido não tanto pela falta de resultados, mas sim por não ser um medalhão capaz de segurar o "rojão" de uma fase oscilante. É triste saber que um profissional com tanto potencial tenha sido rebaixado ao futebol japonês.
Paulo Roberto Falcão, substituto de Eduardo Baptista no Sport, também se mostrou uma boa aposta para o final dessa temporada e para o próximo ano. Conseguiu manter a ofensividade do clube pernambucano, bem como uma defesa sólida liderada pelo capitão e ídolo Durval. Falcão tem à sua frente a melhor oportunidade de sua empreitada como técnico. Sua principal missão é ter a capacidade de apontar nomes que substituam Diego Souza e Marlone, em negociações avançadas com Fluminense e Corinthians, respectivamente.

Sem dúvida foi interessante acompanhar o trabalho desses jovens técnicos. Alguns deles possuem características semelhantes: Roger, Argel e Doriva têm menos de 45 anos, são ex-defensores medianos e trazem/trouxeram para as suas equipes uma filosofia que mescla posse de bola, triangulações e compactação defensiva, especialmente os dois primeiros. Diferenças de personalidade à parte, todos os treinadores citados nesse texto se mostram estudiosos quanto às novas táticas de jogo. Compreendemos então que o "7 x 1" mexeu com os "professores" da nova geração. Vemos uma humildade que, de imediato, é necessária para resgatarmos os áureos tempos do futebol brasileiro. Logicamente não basta apenas isso: o futebol brasileiro precisa abrasileirar os conhecimentos táticos oferecidos pelo futebol estrangeiro. Aplicá-los de forma crua não é correto pois nossos jogadores não tem (nem devem ter!) as características dos jogadores europeus. É importante o resgate da essência do futebol tupiniquim: jogadores que driblem em direção ao gol, que se arrisquem com passes milimétricos, que justifiquem a "ousadia" do lema boleiro "ousadia e alegria".

Quanto aos "professores", acredito que é bom pontuar que estudo nunca é demais. No futebol essa máxima se sustenta quando olhamos para as nossas últimas participações em Copas do Mundo. A temporada 2015 trouxe um pequeno, porém importante suspiro quanto aos comandantes que futuramente assumirão os postos deixados por Scolari, Parreira, Luxemburgo e cia. Liderados por Tite, essa nova geração deve compreender, em primeiro lugar, o tipo de jogador que é formado por aqui, depois absorver o máximo de conhecimentos táticos possíveis, para enfim, adaptá-los ao nosso tipo de jogador, tanto nos clubes quanto na Seleção Brasileira. Como disse na introdução do último parágrafo, foi interessante acompanhar os trabalhos desses jovens treinados e devemos encarar a chegada dessa geração como um benefício para o cenário do futebol nacional. Contudo, fica a pergunta sobre as razões pelas quais os ditos clubes grandes ofereceram oportunidades para esses profissionais: os cartolas conheciam seus futuros contratados ou simplesmente lhes faltou dinheiro em caixa para os medalhões? Entre mortos e feridos quem respira é o futebol brasileiro, que vê surgirem opções para mudanças, ao menos nos bancos de reservas. 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O DIA EM QUE PERDI O TESÃO PELO FUTEBOL

No dia em que perdi o tesão pelo futebol a lua escureceu,
estava nua no céu e tão distante que quase me enlouqueceu.
No dia em que perdi o tesão pelo futebol meu coração falhou,
a cerveja ferveu, a garganta secou, a perna tremeu e o cigarro apagou.

Naquele dia desvesti a camisa puída de sol, suor e arquibancada,
guardei a inquietude da derrota num olhar profundo para o nada.
Na rua muda, apenas o som dos lamentos de outros seres sem expressão
E naquele dia em que questionei meu amor ao futebol, foi-se embora o meu tesão.

Me abandonou também o radinho de pilha, velho guerreiro,
calou meus sentimentos aquele aparelhinho fuleiro.
E nessa angústia de ter perdido o tesão pelo futebol,

Despertei assustado com o quarto invadido pela luz do sol,
era apenas um pesadelo às vésperas de um dia de decisão.
Todo aquele imaginário despertou ainda mais o meu tesão. 

quarta-feira, 18 de março de 2015

TOQUE DE GÊNIO

A bola quica, 
a bola replica, 
a bola queima, 
a bola teima. 
O jogo é duro, 
o professor repreende, 
o time briga, 
a zaga defende, 
o goleio, um muro. 
O fim se aproxima, 
a chuva desanima, 
até que a mão inimiga, 
faltosa e nada efetiva, 
rasga a camisa. 
A barreira é grande, 
diminui os arcos. 
A camisa pesada 
cansa a passada. 
Vêm o beijo: 
chuteira e bola. 
Ligação que arrepia. 
O beque por pouco não desvia, 
mas contra a arte 
não existe magia. 
A bola fatal 
morre nas redes 
e mata o rival. 
A história é escrita 
Quando o juiz, 
aos 90 apita.

sexta-feira, 13 de março de 2015

CORINTHIANS 2015

Demorou, mas eu voltei. Após um ano sabático (na verdade, um ano banhado em preguiça), decidi retomar as atividades do Pequena Área. Não sei exatamente os motivos, simplesmente quis escrever sobre futebol. Poderia começar com poesia; poderia. Não vou. Farei um texto simples, acerca de um novo-velho conhecido dos corinthianos: o técnico multi-campeão, Adenor Leonardo Bacchi, o Tite.  

Não é novidade para nenhum torcedor que o técnico Tite utilizou seu ano sabático (2014) para aprimorar seus conhecimentos futebolísticos. O campeão mundial de 2012 conheceu alguns professores consagrados, como Ancelotti e Guardiola. Em primeiro plano, é bom destacarmos a humildade de Tite em observar que estava desatualizado taticamente. Parece desnecessário apontarmos isso, mas parte do 7 a 1 na Copa passada veio por falta de humildade da comissão técnica da nossa seleção, que apoiou-se em conquistas passadas para sustentar um falso favoritismo. O que faltou à Scolari e Parreira, sobrou para Tite. O novo Corinthians tem a mesma intensidade do time campeão entre 2011 e 2013. A defesa segue consistente e Tite conseguiu melhorar a compactação do meio-campo para atrás, com Jadson e Emerson Sheik, como foi contra o São Paulo pela fase de grupos da Libertadores ou com Petros e Mendonza, como foi contra o Palmeiras, pelo Campeonato Paulista, dedicando-se ao máximo para compor na marcação. 

O esquema 4-1-4-1, que varia para o 4-2-3-1 ou até para o tradicional 4-4-2, tem se mostrado bastante eficiente graças ao intenso trabalho nos treinamentos (fato esse confirmado por jogadores, pelo próprio Tite e pela imprensa que acompanha o dia-a-dia no CT Joaquim Grava). Ralf, que fez uma temporada abaixo da média em 2014, voltou a ser o homem à frente da linha de defensores e tem recuperado o bom futebol. Jadson, tornou-se um bom marcador, cumprindo seu papel quando a equipe do Corinthians está sem a bola. Fagner, contestando pelas dificuldades na marcação, também mostrou evolução. Além disso, jogadores como Petros, Cristian e Mendonza fizeram boas atuações com a camisa alvinegra quando tiveram oportunidades. Bruno Henrique, que fez ótimas apresentações no ano passado, vinha bem até sofrer uma lesão no cotovelo, durante o clássico contra o Palmeiras.

Distribuição tática do Corinthians (4-1-4-1) no confronto contra o San Lorenzo, pela Libertadores 2015 / Fonte: A Prancheta Tática

O Corinthians hoje, sabe ocupar todos os espaços do campo. A marcação em zona, em um espaço pequeno, é outra virtude que têm infernizado a vida dos adversários. Apenas o San Lorenzo, pela Libertadores, conseguiu controlar o ímpeto da equipe paulista e mesmo assim os argentinos saíram derrotados.  

Distribuição tática do Corinthians (4-2-3-1), em azul, no confronto contra o São Paulo pela Libertadores 2015 / Fonte: Soccerway

Para 2015, Tite trouxe ao Corinthians um espírito mais vitorioso. Diferente de sua última passagem, o técnico, em situações normais (leia-se 11 contra 11), não permite mais que sua equipe se acomode no resultado. Por mais que os famosos "1 a 0" persigam o Corinthians, a equipe mantém a intensidade e com toques de bola precisos e rápidos, chega ao gol adversário.

A invencibilidade em jogos oficiais nessa temporada é o reflexo de um Tite estudado e de um elenco capacitado e bem treinado. O torcedor volta a sorrir depois de um ano difícil, que trouxe apenas a vaga para a pré-Libertadores como bom fruto. A confiança no Parque São Jorge é grande, pois sabe-se que no banco de reservas está um grande maestro.