terça-feira, 5 de março de 2013

"OH CRIDE!"

Eu sou apaixonado por "causos" de futebol. Seja do interior, seja da várzea, não importa. As melhores histórias vêm dos lugares menos prováveis. Meu pai tem 60 anos e a melhor coisa do mundo para mim, é assistir um jogo de futebol com ele. Não importa quais times estejam jogando. Os xingamentos e as "aulas de futebol", como eu costumo chamar são demais. Porém, não existe momento melhor do que aquele em que o meu velho começa a narrar suas histórias do tempo que jogava no sítio. 

Só para explicar, meu pai nasceu e morou até os 20 e poucos anos em sítios que ficavam no interior, do interior do Estado de São Paulo. Ele trabalhou na roça de laranja e café por muitos anos, até se mudar para cidade com meus avós e tios. Segundo ele, naquela época não existia o que fazer além de trabalhar muito. O futebol era a única opção de diversão. 

Hoje, enquanto assistíamos à Corinthians e Santos, o zagueiro e capitão santista Edu Dracena deu um bico na bola. O famoso "balão". Nesse momento, meu pai, desanimado com tamanha falta de habilidade do beque, se lembrou de um homem que jogou com ele nos seus áureos tempos de "ponta-direita". 

Euclides era seu nome, mas só fora de campo. Dentro das quatro linhas, o tal Euclides se transformava em Cridão. Cride, para os companheiros de time. Segundo o relato, o zagueirão Cride era um "italiano forte, 'vermeio' igual a terra batida do campo, com quase 2 metros de altura e capaz de botar medo em muito atacante 'mocinha'". Essa foi a descrição inicial dada pelo meu velho. Ele continuou dizendo que não eram por essas características que Cridão se destacava, mas sim pela capacidade que ele tinha em se livrar da redonda feita de couro.  

"Bastava ela quicar na frente dele e o atacante se aproximar... Só ouvia gente de fora do campo gritando: "Ohhh Crideeee, tira a bola Crideee!". Então só se ouvia a pancada seca e a poeira subindo. A chuteira com pregos na sola "riscava" o "campo". Por alguns instantes ninguém sabia em que lugar do céu a bola estava. Quando voltava, parecia uma pedra, impossível de dominar sem deixar quicar. Do outro lado se ouvia novamente: "Booaa Crideee!". E o Cridão "fechava a cara", como um verdadeiro xerife, sabendo que o serviço havia sido bem feito."

Segundo meu pai, Cride era tido como um dos grandes zagueiros da região, porque na época o importante era chutar mais alto. O gol era detalhe. O beque que fizesse a redonda subir mais, era considerado craque. Alguns até iam jogar nos "times profissionais" das redondezas.  
Depois que foi embora pra cidade, meu pai nunca mais soube nada do Euclides, comentou que se estiver vivo, já tenha seus bons 70 anos.

São esses causos que me deixam cada vez mais fascinado pelo futebol. Apenas vendo e ouvindo meu pai contar, sinto uma emoção inexplicável, algo que nos aproxima muito e que me deixa mais orgulhoso de tê-lo como meu pai.

sábado, 2 de março de 2013

É GOL!

A bola rola. Impossível descrever o sentimento. Contagiante é a alegria do gol. Na jogada que começa na esquerda, aos 44 do segundo tempo. Rapidamente quebra a marcação com dois toques rápidos e ultrapassa o meio do campo em diagonal... A sensação é mágica, você sente que aquele é o momento. Então o lateral desce nas costas do marcador, mas o gênio carrega a redonda com carinho, trazendo-a para o meio do pasto. Parece sozinho contra dois gigantes, até que surge o matador. Avançando em velocidade, ele se posiciona no meio de ambos adversários. Nesse instante a torcida se levanta. A bola é passada e parece desfilar no verde intenso do gramado; mansamente ela é amortecida e segue mais alguns centímetros, parecendo implorar: "Me chuta, me chuta". Ouve-se então a batida seca, o encontro do negro da chuteira direita com os gomos hexagonais da bola branca e por instantes os corações de 50.000 malucos deixam de bater. O arqueiro se estica, ela passa por ele sem ao menos dar "boa noite" e morre no canto esquerdo, na junção da rede. O carnaval está armado. É fevereiro? Não, é futebol!