Na última segunda-feira aconteceu a final da 47ª Copa São Paulo de Futebol Júnior. Mais de 30.000 pagantes ocuparam as arquibancadas do Pacaembu para assistir a vitória do Flamengo sobre o Corinthians por 4 a 3 na decisão por pênaltis, depois de um bom 2 a 2 no tempo normal. O forte calor não espantou a animação das duas maiores torcidas do país e o "Clássico do Povo" foi um ótimo começo de celebração para a "Terra da Garoa", que completou 462 anos. Tudo muito bonito até as regras assassinas da essência do esporte e impostas pela Federação Paulista de Futebol e pela CBF aparecerem para desbotar o show.
A primeira punhalada aconteceu após o primeiro gol da equipe alvinegra, ainda no primeiro tempo de jogo. Gabriel Vasconcelos marcou e saiu para comemorar com a torcida corinthiana. Subiu no alambrado e levou cartão amarelo pelo ato. Já no segundo tempo a partida foi paralisada após a torcida do clube do Parque São Jorge acender bastões, erroneamente chamados de sinalizadores pela imprensa, e uma nuvem de fumaça tomar conta das arquibancadas do Paulo Machado de Carvalho. Nada de nocivo, apenas festa dos torcedores paulistas. Mas a arbitragem da FPF se viu obrigada a seguir as regras e interrompeu o jogo até que a fumaça desaparecesse. Os narradores da Rede Globo e do Sportv, Cléber Machado e Milton Leite, respectivamente, criticaram os torcedores com o mesmo discurso sobre a periculosidade dos "sinalizadores". Walter Casagrande Jr., célebre pelo espírito libertário na época da Democracia Corinthiana, também se posicionou contra os torcedores. Por fim, durante a disputa das penalidades, os goleiros Thiago e Filipe trocaram algumas provocações, típicas do calor do jogo e da tensão de uma decisão. Ambos foram advertidos com cartão amarelo.
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| A festa da torcida Corinthiana no Pacaembu. Fonte: Eder Santos |
A justificativa para as mudanças e proibições a fim de assegurar o bem-estar do torcedor é mais uma daquelas balelas manjadas por qualquer um que conhece o meio. O cidadão que vai para o estádio com o objetivo de espalhar a violência o fará com qualquer coisa que esteja ao seu alcance: seja o mastro da bandeira (embora eu ache pouco provável que alguém consiga fazer algo com uma estrutura de bambu de mais de 3 metros de altura) ou com as suas próprias mãos. Os bobos do futebol são aqueles que culpam apenas as torcidas organizadas pela falta de segurança nos estádios brasileiros. Essa "árvore de culpa" é extensa e tem suas raízes em problemas sociais que vão muito além do que esse texto pode explicar. Cada torcedor carrega no coração, além da paixão pelo futebol e pelo clube (não exatamente nessa ordem), um ritual ou tradição que entrará em combustão assim que ele adentrar ao estádio. Não faz sentido tirarmos essa intensidade do esporte. Não faz sentido colocarmos todos sentados para comemorar um gol como se assistissem a uma ópera.
Alguns acreditam que essas mudanças na estrutura dos estádios e no espírito do torcedor são os primeiros passos rumo à modernização do futebol brasileiro. Acredito que o que impede o desenvolvimento e consequente equiparação ao que é apresentado no estrangeiro são as enferrujadas estruturas internas do nosso esporte. É possível respeitar as tradições, como manter os estádios populares a despeito das arenas e o modo de torcer às antigas, e paralelamente desenvolver o futebol com a união e fortalecimento dos clubes. A essência desse esporte está impregnada no retrato do povo brasileiro e não vejo saudosismo quando pedimos um futebol mais democrático e que se mantenha próximo da realidade das massas. Torcer é um ato de paixão. É ato quase irracional que beira a loucura. Não podemos aceitar todas essas imposições, que tratam de criar apenas uma caricatura do torcedor brasileiro. Não somos sócios-torcedores. Não somos torcedores de arenas. Somos torcedores e nada mais. Apaixonados. E nada mais.



