quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

DEVOLVAM A ESSÊNCIA DE TORCER

Na última segunda-feira aconteceu a final da 47ª Copa São Paulo de Futebol Júnior. Mais de 30.000 pagantes ocuparam as arquibancadas do Pacaembu para assistir a vitória do Flamengo sobre o Corinthians por 4 a 3 na decisão por pênaltis, depois de um bom 2 a 2 no tempo normal. O forte calor não espantou a animação das duas maiores torcidas do país e o "Clássico do Povo" foi um ótimo começo de celebração para a "Terra da Garoa", que completou 462 anos. Tudo muito bonito até as regras assassinas da essência do esporte e impostas pela Federação Paulista de Futebol e pela CBF aparecerem para desbotar o show. 

A primeira punhalada aconteceu após o primeiro gol da equipe alvinegra, ainda no primeiro tempo de jogo. Gabriel Vasconcelos marcou e saiu para comemorar com a torcida corinthiana. Subiu no alambrado e levou cartão amarelo pelo ato. Já no segundo tempo a partida foi paralisada após a torcida do clube do Parque São Jorge acender bastões, erroneamente chamados de sinalizadores pela imprensa, e uma nuvem de fumaça tomar conta das arquibancadas do Paulo Machado de Carvalho. Nada de nocivo, apenas festa dos torcedores paulistas. Mas a arbitragem da FPF se viu obrigada a seguir as regras e interrompeu o jogo até que a fumaça desaparecesse. Os narradores da Rede Globo e do Sportv, Cléber Machado e Milton Leite, respectivamente, criticaram os torcedores com o mesmo discurso sobre a periculosidade dos "sinalizadores". Walter Casagrande Jr., célebre pelo espírito libertário na época da Democracia Corinthiana, também se posicionou contra os torcedores. Por fim, durante a disputa das penalidades, os goleiros Thiago e Filipe trocaram algumas provocações, típicas do calor do jogo e da tensão de uma decisão. Ambos foram advertidos com cartão amarelo.

A festa da torcida Corinthiana no Pacaembu.
Fonte: Eder Santos
As advertências para casos como os citados, especialmente para o que envolve diretamente a torcida, são extremamente tristes para a essência do futebol. Não é de hoje que restrições como essas permeiam as arquibancadas dos estádios de São Paulo. As bandeiras com mastros de bambu foram proibidas há anos. Os bastões de fumaça, como vimos, também são passíveis de repreensão. As chuvas de papéis picados e/ou rolos de papel higiênico, tão famosas nos países vizinhos do Brasil, ocorrem em ocasiões cada vez mais esporádicas. Essas medidas restritivas parecem inofensivas se vistas sem o sentimentalismo apaixonado de torcedor. A restrição às bandeiras com mastros soam até como uma proteção ao espectador, mas quem realmente enxerga o futebol com olhos de paixão sabe que o prazer de torcer está sendo assassinado aos poucos: seja com as famigeradas regras do "Manual do Torcedor", seja com a extinção das populares "Gerais" nas novas Arenas. Essa elitização no modo de torcer do brasileiro vem desconstruindo todas as características do esporte jogado por aqui, inclusive a falta de alma nas novas arquibancadas reflete, pois, na nova geração de jogadores. Até as bandinhas (charangas), típicas das torcidas do Nordeste e do Sul, que também fizeram sucesso no Rio de Janeiro, estão quase extintas nesse novo modo de torcer.

A justificativa para as mudanças e proibições a fim de assegurar o bem-estar do torcedor é mais uma daquelas balelas manjadas por qualquer um que conhece o meio. O cidadão que vai para o estádio com o objetivo de espalhar a violência o fará com qualquer coisa que esteja ao seu alcance: seja o mastro da bandeira (embora eu ache pouco provável que alguém consiga fazer algo com uma estrutura de bambu de mais de 3 metros de altura) ou com as suas próprias mãos. Os bobos do futebol são aqueles que culpam apenas as torcidas organizadas pela falta de segurança nos estádios brasileiros. Essa "árvore de culpa" é extensa e tem suas raízes em problemas sociais que vão muito além do que esse texto pode explicar. Cada torcedor carrega no coração, além da paixão pelo futebol e pelo clube (não exatamente nessa ordem), um ritual ou tradição que entrará em combustão assim que ele adentrar ao estádio. Não faz sentido tirarmos essa intensidade do esporte. Não faz sentido colocarmos todos sentados para comemorar um gol como se assistissem a uma ópera.

Alguns acreditam que essas mudanças na estrutura dos estádios e no espírito do torcedor são os primeiros passos  rumo à modernização do futebol brasileiro. Acredito que o que impede o desenvolvimento e consequente equiparação ao que é apresentado no estrangeiro são as enferrujadas estruturas internas do nosso esporte. É possível respeitar as tradições, como manter os estádios populares a despeito das arenas e o modo de torcer às antigas, e paralelamente desenvolver o futebol com a união e fortalecimento dos clubes. A essência desse esporte está impregnada no retrato do povo brasileiro e não vejo saudosismo quando pedimos um futebol mais democrático e que se mantenha próximo da realidade das massas. Torcer é um ato de paixão. É ato quase irracional que beira a loucura. Não podemos aceitar todas essas imposições, que tratam de criar apenas uma caricatura do torcedor brasileiro. Não somos sócios-torcedores. Não somos torcedores de arenas. Somos torcedores e nada mais. Apaixonados. E nada mais.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

UMA QUESTÃO DE VALORES

Uma cena de 2015 repete-se em 2016: o campeão brasileiro de ano anterior sofre um desmanche e perde jogadores para ligas inexpressivas, porém enriquecidas. Em 2015, o Cruzeiro perdeu duas peças fundamentais: Éverton Ribeiro, o Craque dos Brasileirões de 2013 e 2014 e o meia-atacante Ricardo Goulart; o primeiro migrou para o Al-Ahli, dos Emirados Árabes, o segundo para o chinês Guangzhou Evergrande. Os cruzeirenses sofreram com as investidas orientais no último ano também: o técnico Mano Menezes, que fez um ótimo trabalho com os mineiros nos últimos meses de 2015 e criou boas expectativas para esse ano deixou o clube de onde poderia reerguer a carreira após os insucessos na Seleção, no Flamengo e no Corinthians para assumir o milionário Shangong Luneng. No começo desse ano os corações corinthianos lamentam as saídas dos meias Jadson e Renato Augusto e  do volante Ralf. Os três foram vendidos para clubes chineses. Os três saíram após temporadas brilhantes em seus respectivos clubes. Os três cairão em esquecimento, especialmente Renato, titular na Seleção brasileira e que viveu os melhores momentos da carreira no último ano.

Esses clubes multi-milionários têm vida fácil. Observam os elencos campeões das ligas periféricas, selecionam os respectivos atletas que se destacaram (não importando a idade ou a posição), fazem a oferta salarial e pagam a multa rescisória. Não há espanto, nem choro e nem vela. Esse é o preço que nós, torcedores de clubes brasileiros mal administrados e falidos, temos que pagar: ver os craques dos nossos times partirem ao final de temporada rumo ao dinheiro fácil do Oriente. Nos últimos dias li comentários no mínimo esdrúxulos de torcedores alvinegros. Muitos não aceitaram bem a saída do camisa 8 corinthiano e logo vieram os populares "mercenário" e "mal-caráter", só para citar as principais ofensas direcionadas ao novo contratado do Beijing Guoan.

Renato fez aquilo a que foi condicionado: foi em busca do capital. Não podemos condená-lo.
O primeiro ponto é compreendermos que todo trabalhador tem o direito de escolher a melhor oferta de emprego. Se agrada a Renato Augusto receber 2 milhões de reais mensais para um campeonato tecnicamente inferior e com as datas reduzidas, que seja. Não devemos julgar o atleta pela escolha e nem lembrá-lo dos malefícios dessa mudança radical. Renato sabe de tudo isso. Sabe que perderá a vaga na Seleção Brasileira, sabe que não disputará a Libertadores, um campeonato vitrine e que lhe abriria as portas para o desejado retorno à Europa. O segundo ponto e na minha visão, o mais importante é que o leitor/torcedor entenda que o problema não está somente no atleta, no empresário, no presidente do clube, nos chineses cheios de grana ou na grande locomotiva financeira chamada futebol. O problema está em todos nós: nesse, que vos escreve, no seu vizinho, no Renato Augusto, nos chineses, em você, que lê esse texto, enfim em toda a sociedade e mais ainda, esse problema tem nome: dinheiro. Espero que poucos tenham se surpreendido com essa revelação.

Nós compreendemos um meio dominado pelo capital. Em todos os cantos fala-se de dinheiro e o quanto nós devemos nos esforçar para obtê-lo em quantidades que nos traga uma suposta melhora na qualidade de nossa vida. Não é meu objetivo bancar o filósofo contemporâneo e explanar sobre o quão falsas são essas ideias de que o dinheiro traz felicidade e sua existência é benéfica para o homem. William Shakespeare certa vez definiu o vil metal como "Metal maldito, tu, prostituta comum da humanidade, que semeias a discórdia entre os homens". Em seu "Manuscrito Econômico-Filosófico" Karl Marx expõe como o dinheiro aliena o ser humano. Quando nos entendemos como pequena peça de uma gigantesca engrenagem capitalista concluímos que praticamente por toda a nossa a vida voltamos nossa energia e atenção para o dinheiro. O estudo e o trabalho são direcionados para um futuro de riquezas. Nos está incrustada essa ilusão.

A questão de valores não se refere à quantia paga pelos chineses para as contratações dos jogadores brasileiros nas últimas temporadas. Minha intenção é tratar dos reais motivos que sustentam as mudanças desses atletas. Quero expor que é algo que vai muito além de um negócio futebolístico e de um plano de carreira. São os valores ideológicos e sociais que estão pauta. É hipocrisia criticarmos qualquer um desses profissionais, porque nós fazemos o mesmo ao longo da vida. A comparação somente muda quando tratamos dos valores financeiros, mas o combustível é o mesmo: o dinheiro. Essa mentalidade não vem de hoje, em 1503 o navegador Cristóvão Colombo escreveu o seguinte em sua "Carta à Jamaica": "O ouro é excelentíssimo: do ouro faz-se tesouro, e com ele, quem o tem, faz quanto quer no mundo, e chega a levar as almas ao paraíso." (Retirado de MARX, Karl, "O CAPITAL"). E muito antes dessa colocação o amor pelo dinheiro já pulsava no sangue da humanidade.

Somos vítimas de uma ideologia e um sistema alienantes. Sacrificamos uma vida verdadeiramente vivida para satisfazer um mercado selvagem que nos abarrota de "grandes produtos indispensáveis para o nosso cotidiano". Caminhamos cegamente rumo ao fim do arco-íris em busca do sonhado pote de ouro que poderá comprar tudo o que existe no mundo. Para os jogadores brasileiros o arco-íris está na China. Não temos o direito de julgá-los pois a nossa China é logo ali, na universidade prestigiada, no escritório ao lado, enfim, em todo o canto em que houver o maior montante financeiro.

REFERÊNCIAS




terça-feira, 5 de janeiro de 2016

DA BOLA NO PÉ PARA O MICROFONE NAS MÃOS

Para um atleta admitir que a sua carreira chegou ao fim é um passo extremamente complicado e no futebol não é diferente. Muitos são os relatos de ex-jogadores que sofreram de depressão e problemas semelhantes ao pendurarem as chuteiras, inclusive o "Rei de Roma" Paulo Roberto Falcão afirmou que "O JOGADOR DE FUTEBOL MORRE DUAS VEZES. A PRIMEIRA, QUANDO PARA DE JOGAR." Uma pequena minoria desses ex-atletas, sem rumo quando deixam os gramados, escolhem os uniformes das emissoras de televisão e se colocam na função, muitas vezes considerada "mais fácil" por eles próprios enquanto jogadores: a de jornalista/comentaristas.

Alguns dos contratados da ESPN Brasil para a Copa do Mundo de 2014
Nomes conhecidos não faltam: Falcão, a pouco citado, foi comentarista da Rede Globo por quase 15 anos. Walter Casagrande, Neto, Edmundo, Caio Ribeiro, Ronaldo Giovanelli, Roberto Rivelino e Denílson são alguns dos nomes somente da TV aberta (leia-se Globo, Band e TV Cultura) e desses, apenas o "Animal" não cobre o Estado de São Paulo. Alex, Juan Pablo Sorín, Mario Sérgio, William Machado, Roger Flores, Zé Elias, Edinho, Ricardo Rocha e Carlos Alberto Torres são alguns ex-jogadores que compõe as bancadas esportivas das emissores fechadas (ESPN/ESPN Brasil, Sportv e Fox Sports). Durante a Copa do Mundo de 2014 o número de ex-jogadores comentaristas aumentou consideravelmente.

Acima de suas personalidades, todos esses profissionais seguem a mentalidade proposta pela respectiva emissora que o emprega e depois a característica - se é que podemos definir assim - do programa em que participam. As redes abertas, especialmente a Band, trabalha com programas esportivos que se sustentam em debates polêmicos com um tom humorístico no mínimo controverso. Do outro lado, a Rede Globo traz profissionais jovens, como Caio Ribeiro, que durante as transmissões das partidas faz análises técnicas superficiais e comentários um tanto quanto desnecessários. Casão, também da emissora carioca, afirmou no programa da ESPN "Bola da Vez" que não é um estudioso tático do futebol, seu foco de aprendizado são relatos históricos do esporte e que baseia seus comentários de acordo com aquilo que vê no jogo em que está trabalhando (PARTICIPAÇÃO DE CASAGRANDE NO "B.B."). José Ferreira Neto é uma das locomotivas do departamento esportivo do Grupo Bandeirantes. Às vezes polêmico, às vezes divertido, às vezes bizarro, nem sempre sensato.  Neto recebe diversas críticas sobre a sua postura e seus comentários superficiais enquanto comentarista e apresentador. Muitas desses críticas acontecem após o ex-jogador do Corinthians cobrir jogos da UEFA Champions League. Por outro lado, o pentacampeão mundial Denílson demonstra sensatez e embasamento tático necessários para ex-jogadores que partem para o jornalismo. O bom humor do "Morcego" se aproxima do estilo descontraído esperado pela emissora em seus programas esportivos.

As emissoras pagas, especialmente a ESPN, tem forte apelo técnico e esperam menos carisma e mais conhecimento de jogo de seus contratados. Juan Pablo Sorín é o melhor exemplo de ex-jogador que conseguiu se encaixar na profissão de comentarista. Seja em transmissões ou participações no "Bate-Bola", o ídolo cruzeirense apresenta ao "fã do esporte" uma visão racional do jogo e se tornou um dos favoritos do público. Por outro lado, a Sportv, que possuí excelentes jornalistas/comentaristas como Maurício Noriega, é a casa do ex-Fluminense Roger Flores. Roger está longe de agregar conhecimento técnico nas transmissões do "canal do esporte" e se assemelha mais com os ex-jogadores comentaristas das emissoras abertas, pois parte para o lado das polêmicas que envolvem o meio. O ex-jogador e ex-técnico Mario Sérgio, da Fox Sports, é mais um dos comentaristas que caminham sobre a linha da polemicidade. Devemos ter consciência de que todas as emissoras televisas tem um público alvo para quem tentam vender um determinado produto. As abertas tratam de se aproximar do popularesco, enquanto as fechadas deixam claro que trabalham com um "público selecionado". Tudo isso deve ser levado em consideração quando analisamos o comportamento dos funcionários dessas grandes redes, junto àquilo que conhecemos acerca da personalidade de cada indivíduo.

O narrador Silvio Luiz já se posicionou contrário à contratação de ex-jogadores para o cargo de comentaristas/jornalistas. A opinião de Silvio se sustenta na ideia de que jornalistas se especializam para exercer a função e que a justificativa de que os ex-atletas estão nas cabines para "transmitir suas experiências" não é válida. Segundo o narrador, "um ex-goleiro deveria passar experiência para um jovem goleiro; um ex-especialista em cobranças de falta deveria trabalhar nos clubes passando para os jovens esse fundamento..." (ENTREVISTA DO SILVIO LUIZ). Trocando em miúdos: ex-jogadores sem formação acadêmica devem trabalhar dentro dos clubes, ao passo que aos jornalistas formados deve ser reservado o direito de trabalhar nos bastidores do ambiente esportivo brasileiro. Não podemos desconsiderar a visão do narrador, já que para qualquer tipo de trabalho é necessário uma qualificação e não apenas experiência na área pretendida. Como já foi dito aqui, Neto assumiu o posto de comentarista dos jogos da Champions League após a demissão do jornalista Mauro Beting da emissora de João Carlos Saad. Mauro dispensa comentários: racional, coeso, polido. Excelente jornalista e comentarista esportivo. Neto, mesmo tendo demonstrado interesse por livros relacionados ao esporte ainda se coloca à frente dos comentaristas esportivos, por ele tachados de "letrados da bola", pelo fato de ter tido uma carreira profissional como jogador de futebol.

De jogador polêmico a comentarista polêmico
A visão de um ex-jogador não pode ser desconsiderada, inclusive Juca Kfouri já escreveu em seu blog que "muitos deles tem a experiência que os jornalistas não tem". Eles podem explicar melhor do que ninguém o que se passa na cabeça dos atletas em um dado momento do jogo: antes de uma disputa de pênaltis ou durante o desenrolar de uma jogada. Levar ao espectador informações de como o jogo é visto através de profissionais que estiveram do lado de dentro das quatro linhas é algo importante para qualquer transmissão televisiva. Mas o fato é que jornalistas "letrados", como diria Neto e/ou ex-jogadores preparados para a função de jornalistas, expõem um ponto de vista que se aproxima mais do espectador porque a visão deles muitas vezes completa a leitura do jogo feita pelo torcedor. Creio que o ouvinte não se preocupa apenas em saber que o time dele joga recuado ou na retranca, mas também qual é o posicionamento defensivo da equipe, como ela se comporta quando é atacada e outras informações que só podem ser expostas por um profissional com maior conhecimento de jogo. O espaço ocupado pelos ex-jogadores nas cabines de televisão acontecem porque, diferente do rádio, o objetivo da transmissão é entreter. As partidas são narradas no rádio. O jogo é rápido e os comentários devem ser sucintos e bem colocados - o que não impede o rádio de ter comentaristas ruins - para que o narrador possa fazer seu trabalho de descrever a partida ao ouvinte. A questão importante para nós, espectadores, é sabermos qual é o tipo de jornalismo que queremos e a partir disso procurarmos pelo conteúdo que melhor se encaixa no nosso gosto.